domingo, 28 de setembro de 2008

Café com Amélie

Em certas conversas, lembro exatamente das expressões faciais do meu interlocutor, da força como cerra os dentes quando está com raiva, joga a cabeça para trás nas gargalhadas ou, nervoso, coça a ponta do nariz. Mas fixar uma só palavra do que foi dito, por favor, tem horas que é tortura. Sorrio, assinto, me espanto... Mas estou noutra esfera. “Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre”. Nessa frase, de Fernandão boníssima Pessoa, encontrei, enfim, um par perfeito para o desapego a tanta coisa que me ronda.


A citação casou bem, por sinal, com o novo termo que acabo de aprender: presenteísmo. Os dicionaristas ainda não reconhecem essa palavrinha. Mas entendo bem disso. O presenteísmo, na verdade, é estar na aula de italiano quando tudo que se pensa é na calça manchada que não se pôs para lavar; é andar com dois corpos: a caminho do trabalho estou, ao mesmo tempo, pelas ruas de Stambul, no café com Amlélie Poulain.


Certo dia, no consultório médico, ao ser perguntada sobre há quantas horas estava na fila, tudo que sabia responder era sobre os pés rachados da senhora gorda à minha esquerda, sobre a moldura quebrada no quadro falso de Romero Britto, disposto no canto da clínica, e sobre a sobrancelha desajustada da recepcionista.


Desolado com minha falta de zelo às suas conversas, um amigo confessou que daria um dedo pelos meus pensamentos. Na boa: ele não entenderia o enigma que me leva a falar sozinha, rir do sigilo, resmungar do vento, balbuciar dialetos que nem eu entendo. Como explicar essa ebulição de quase tudo? Sou o meu próprio espetáculo e adoro assistir à minha paisagem.



Myllena Valença

8 comentários:

Bruno disse...

Mylle está com uma escrita mais complexa que antes. Tá subindo de nível. É que ela tem uma narrativa dinâmica: uma hora a gente tá num lugar; noutra, foi pro outro lado do mundo. Acho legal isso! Mas se não ficar atento, o leitor pode se perder... Mas gosto disso, porque prende a atenção. Não é uma leitura que vc já sabe o final.

beijo!

Carlos Plácido disse...

Gostei muito viu. Realmente você conseguiu descrever os momentos em que eu te conto alguma coisa e, por Deus, a minha última frase é sempre a mesma: "Tu tá ouvindo Myllena?
E, claro, a sua resposta também sempre a mesma: "hã?"
Aí eu aperto os olhos, suspiro e conto tudo novamente.`
É assim todos os dias. Mas adoro essa presenteísta!

Gilvany disse...

Presenteísmo...
vamos viver o que há pra viver dessa palavra!!!
precisoooo!!
ai, um luxo... me sinto a mais intelectual lendo tuas crônicas!!
leitora fiel agora, viu?!!!

beijãooooooo!!!!!!!

Criadores: disse...

Consegui me ver um pouco. Esse seja, talvez, "um pouco" de cada um. Já pensou, prestar atenção a tudo e a todas as palavras, sem nos permitir, naquele momento, viajar por todos os lugares, ou, simplesmente, viajar para lugar nenhum? Apenas não estar lá!

Seria egoísmo??? Nada!!! Egoísmo é não fazer parte de nossa viagem, mesmo porque, ao final, guardamos uma palavra, um gesto... e o que a outra pessoa guardou de nossa viagem!? Bem, ela nem observou que não estávamos ali.

"Café com Amélie (Poulain)" é cômico, dramático, mas, ao mesmo tempo real e singelo.

Valeu Mylla, quem sabe a gente não se encontra numa dessas viagens!? Mylla, Myllena... tá me ouvindo??? kk...

Leonard Bernardo

Marcela disse...

Queridaaa, vc escreve muitíssimo bem!!!Você realmente sabe do que está falando e tem talento, adoreiii!!
E ainda aumentou meu vocabulário, Presenteísmo...
Sei exatamente do que você está falando, já vivi inúmeras situações parecidas!!!
Agora vou usar sempre a palavra!
:P
Parabénss!!!
Beijos

Marcela Raimundo disse...

Cada vez melhor! Eu me vejo em muita coisa que tu escreve, será isso um bom sinal?! Que Deus nos dê juízo!


Beijo enorme, Milladynha!

diogo monteiro disse...

Presenteísmmo é o escambau. Isso é uma dislexia galopante...

Paulo Galvez disse...

Você precisa escrever mais, viu?