domingo, 28 de setembro de 2008

Café com Amélie

Em certas conversas, lembro exatamente das expressões faciais do meu interlocutor, da força como cerra os dentes quando está com raiva, joga a cabeça para trás nas gargalhadas ou, nervoso, coça a ponta do nariz. Mas fixar uma só palavra do que foi dito, por favor, tem horas que é tortura. Sorrio, assinto, me espanto... Mas estou noutra esfera. “Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre”. Nessa frase, de Fernandão boníssima Pessoa, encontrei, enfim, um par perfeito para o desapego a tanta coisa que me ronda.


A citação casou bem, por sinal, com o novo termo que acabo de aprender: presenteísmo. Os dicionaristas ainda não reconhecem essa palavrinha. Mas entendo bem disso. O presenteísmo, na verdade, é estar na aula de italiano quando tudo que se pensa é na calça manchada que não se pôs para lavar; é andar com dois corpos: a caminho do trabalho estou, ao mesmo tempo, pelas ruas de Stambul, no café com Amlélie Poulain.


Certo dia, no consultório médico, ao ser perguntada sobre há quantas horas estava na fila, tudo que sabia responder era sobre os pés rachados da senhora gorda à minha esquerda, sobre a moldura quebrada no quadro falso de Romero Britto, disposto no canto da clínica, e sobre a sobrancelha desajustada da recepcionista.


Desolado com minha falta de zelo às suas conversas, um amigo confessou que daria um dedo pelos meus pensamentos. Na boa: ele não entenderia o enigma que me leva a falar sozinha, rir do sigilo, resmungar do vento, balbuciar dialetos que nem eu entendo. Como explicar essa ebulição de quase tudo? Sou o meu próprio espetáculo e adoro assistir à minha paisagem.



Myllena Valença