terça-feira, 14 de agosto de 2007

Na Casa das Sete Mulheres 2

Quem acompanhou as peripécias de minhas coleguas em “Na Casa das Sete Mulheres” e conheceu o lado romântico de uma república deve se preparar para apreciar as outras facetas das espécies com quem habitei. Houve algumas normais, sei. Mas as barras-pesadas super merecem divulgação. Não posso guardar para mesas de bar ou para minhas netinhas as excentricidades das garotas que invadiram a calmaria do meu lar e me fizeram esquecer o significado do termo normalidade, tornando minha vida menos compartilhada e mais compartimentada.
Vou usar nomes fictícios, ok? Ainda não será dessa vez que ficarão famosas.

Já vivi sob o mesmo teto que a mulher mais fora de si de todo o mapa-múndi. Susana dizia por aí ter sido noiva de um traficante do Rio de Janeiro. Usava um anel da H. Stern cravejado de três pedras de brilhante, que, segundo o orçamento esbanjado pela “sortuda”, valia mais de quatro mil reais. Também tinha vestido e sapatos de grife doados pelo garanhão. Era o seu kit! Uuui!

A garota se aproveitou do meu excesso de bondade e aprontou pacas! Num dia de frio vestiu (sem permissão) meu único casaco limpo e, desaforada que só ela, disse que se eu quisesse usar a roupa fosse lá obrigá-la a tirar. Não sei se foi o gosto pelo desafio ou se ela tava ligada na minha. Preferi não procurar saber de suas intenções e sai no frio mesmo. Ai, como eu era lesa!

Dias depois fui usar as botas mais lindas que uma estudante de primeiro período e sem estágio poderia comprar. Me arrumei toda, vesti o pé esquerdo e, com o outro pé descalço, fui até a sala, mancando feito coxa. Ela estava sentada de pernas pro ar e fumando um cigarro. Susana, tu viu minha bota preta que tava no armário? Mulheeeer, sabe o que foi...? É que saí com ela ontem à noite (mais uma vez sem permissão) e um bandido me assaltou. Ele deixou cair uma e eu trouxe de volta! E por que você não entregou a outra bota ao moço, Susana? O que o bandido vai fazer com uma bota só? Depois descobri que aquele exu tinha jogado o sapato no namorado, durante uma briga na rua, e não voltou para buscar...

Lembro do dia que avistei Lourdes pela primeira vez. Uma moça cheia de gingas de malandro da favela. Pintava as madeixas de preto azulado e tinha o hábito de modelá-las com um tal de pega-rapaz. Fazia um rabo-de-cavalo e deixava uma franja quase na altura dos ombros, dividida ao meio para dar um “quê” de mulher fatal. Fora as maquiagens num estilo Paulette Pink, a drag queen; e as lentes de contato azuis (e verdes, para ocasiões mais formais) que usava lhe davam um aspecto de vampirismo de lascar, do tipo tirem as crianças da sala, que lá vem Lourdes! Adorava usar um par de botas brancas na altura do joelho e mais parecia que as pernas da louca estavam engessadas.

Um belo dia me aparece desfilando pela casa com um pedaço de pão francês com carne numa mão e um palito de dentes na outra, só de calcinha e sutiã. Ao notar nossos olhares (pouco discretos) para seu o corpinho nada jeitoso, tratou logo de esclarecer: tão vendo isso aqui no meu quadril? Né estria, não! É marca de facada mermo! Silêncio absoluto e olhos arregalados. Pelamordedeus! Pensamos em exorcizar a menina, entregar cartilha de educação doméstica. Tão simples. Mas a guria queria nem papo com a gente.

Havia outra, Marluce, que era “tarada, sim, e com muito orgulho”. Com ela não tinha esse negócio de perder tempo com conversa fiada! Queria, podia e conseguia devorar os homens! A lembrança de Marluce que tenho entalada na memória é dela preparando uma feijoada. Estava com toca de meia na cabeça para conservar a escova feita sete dias antes, vestia camisa branca furenta, daquelas ganhas em campanha de vereador, e um micro short que desafiava as leis da Física. Enquanto partia com uma peixeira os pedaços de linguiça, mantinha o pé esquerdo escorado no joelho direito e, de vez em quando, dava uma pausa para tirar a calcinha de renda vermelha - maior que o short - da bunda; cortava pé-de-porco, tirava o outro lado da calcinha da bunda; machucava o alho e... Não era tão vaidosa quanto a outra: tinha um rímel vencido no nécessaire e ainda não havia descoberto sua utilidade.

Ela vivia com os hormônios histéricos e uma das moradoras até costumava chamá-la de periquita flamejante! Com razão. Numa noite qualquer, as outras cinco meninas circulavam alvoroçadas pela cozinha, sala, banheiro... Mas um dos quartos estava mais que ocupado. Trancado. Em vez de colocar uma placa com néon rosa na porta dizendo “O BICHO TA SOLTO!” ou ir para o lugar certo onde se faz certas coisinhas, a moça levou “o homem das mãos grossas” para um dos nossos quartos. Minha gente, aquilo deu um rolo... Uma semana de reunião, debate de puritanas versus desinibidas, um chilique danado! Foi trabalho para a casa se descontaminar daquele dia!

Agora, avaliem o que é essa criatura, doente por Bruno e Marrone, dividindo espaço com uma roqueira. Mas não era uma roqueira qualquer, não! Era seguidora de Sepultura, Ratos de Porão e, em dias de calmaria, Dimmu Borgir – tudo no volume máximo! Na semana que apareceu na casa, a moça teve a insalubre capacidade deixar as unhas de molho em uma Tupperware e jogar os restos mortais de cutículas DENTRO, compreendem?, DENTRO da pia da cozinha! E achou péssimo a gente tentar explicar que, no convívio em sociedade, isso é absolutamente execrável! Jogamos o recipiente lixo adentro junto com a memória, mas ainda era um parto ver aquela criatura mastigar com a boca aberta e trocar guardanapos por panos de prato...

Sofri, é bem verdade, mas a vingança vem de jegue! Saí de lá e, no lugar, ficou uma criatura que faz qualquer uma dessas histórias parecer fichinha! Toma café no prato, usa saia longa com bota All Star e colabora com o futuro da humanidade poupando qualquer uso de água.


Myllena Valença

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Bálsamo

Passa um a um na lista telefônica e desiste na letra G... Não encontra alguém que a faça rir, que a console. Não tem ninguém. A magnífica invenção de Graham Bell nem sempre é o antídoto para esse buraco negro implacável que transforma sua rotina em discretos velórios sem flores e sem pessoas para dar-lhe movimento. A saudade sufoca. O desejo de roubar e enjaular o que não lhe pertence, dói. Porque não adianta estar junto, porque ainda não pode ser assim. A pressão aumenta, o oxigênio diminui. E precisa de um tempo para pinturas e reformas. O breu toma conta do universo, das conversas, dos amigos, das roupas que outrora fizeram daquela mulher algo mais que um esqueleto que se deita e se levanta sem rumo.

Daria qualquer coisa para sentir novamente a paz que aquele silêncio provoca. Aquela respiração era a dose de endorfina que mantinha sua pulsação. Queria - nem que fosse para sobreviver vendo-o sorrir com a mesma magia do segundo encontro. Como que dentro de um quadro emoldurado... Isso lhe bastaria. Ah, se o momento se perpetuasse, e congelasse... A lágrima se acomodaria e não mais teria motivos para cair. O corpo não ficaria mais enfadado de tanto lutar contra a memória daqueles dias.

Ela nunca se sentiu de ninguém. Mas foi descoberta, desbravada. Agora ela vai começar a se preparar para o dia do arrebatamento. Para mais uma prova de seu elixir. Ele irá retirá-la do congestionamento. Do excesso de buzinas. Das músicas tocadas ao inverso. E então o abraço virá como um bálsamo para sua alma incompreendida. Conforme ensinou um poeta, aprendeu com a primavera a deixar-se cortar e voltar sempre inteira.

Myllena Valença

sábado, 4 de agosto de 2007

A tal inveja

Raquel está sempre ligada na TV Câmara, vê novelas, acompanha todos os Big Brothers e é leitora assídua da Marie Claire; graças a Gikovate, discorre com muita propriedade sobre temas como amor próprio, amor ao próximo e fazer amor. Ademais, é seguidora de Dostoievski e até de Paulo Coelho – depois de muita resistência. Bebe cerveja, conhece segredos profissionais para comprar, armazenar, servir e saborear vinhos e é a melhor veterinária da clínica. Há anos freqüenta academia três vezes por semana - e é dona do mais belo par de pernas de todo o quarteirão. Até já se habituou à ausência de... bunda e sabe excelentes truques de como usar roupas para disfarçar a ínfima imperfeição. Uma mulher completa, linda...

O problema é que, até os 28 anos, não havia conseguido fisgar um namorado a sua altura, um cara sério com quem pudesse desfilar por aí, apresentar às amigas, à tia chata e ao pessoal do trabalho como SEU. Ela se garante de verdade, sabe? Tem bom papo, mexe com os caras. Mas todos que passam por ela somem, como regra, no vigésimo encontro, no máximo. Quando tudo está se encaixando e as interpretações da conquista foram deixadas para trás, o pretendente se esquiva de fininho ou lhe dá um fora que desce rasgando!

Poxa, será que a bunda influencia tanto assim? Um clareamento dental resolveria? Sessões de terapia? Ela não sabe se passa a se comportar de forma mais recatada ou se age como uma exibicionista... O que assusta os homens: fazer parte do rol de moçoilas sérias ou das prontas para o ataque? Está beirando a casa dos 30 e não tem com quem planejar uma lua-de-mel, a decoração da casa, os nomes dos filhos... Já se sente experta o bastante para lidar com qualquer tipo de pretendente: tímidos, extrovertidos, panos-quentes, egoístas ou generosos... Desde que a amem e enxerguem cada um de seus predicados – mas nada acontece!

Foi aí que numa bela noite uma amiga de uma amiga apresentou Marcelo... Ah, Marcelo... O homem mais perfeitinho que a Rede Feminina de Combate ao Preconceito e a Associação de Mulheres Bem-resolvidas poderiam desejar. Fino, educado, vistoso, simpático, fala francês, inglês, toca violão, ganha qualquer partida de sinuca ou pôquer e é o carinha popular da empresa onde trabalha. O olhinho dele cintilou ao topar no dela. Daí em diante, pediu-a em namoro e meses depois estavam noivos. Diante de mais ou menos um lote de amigos, Marcelo fez a declaração de amor mais linda que uma mulher poderia ouvir ao longo de quatro ou doze encarnações. Ele a amava intensamente... Dava-lhe flores dia de quinta-feira só porque era quinta-feira...

Mas algo estranho não aconteceu. Algo completamente anormal não ocorreu. As pernas dela não tremiam. A garganta não ficava seca nem o coração acelerava quando estava com ele. Ela sonhava acordada com a blusinha nova que havia comprado, com a conta de energia que esqueceu de pagar. Mas não pensava nele. Não delirava por ele. Sabe-se lá porque, ela não escutava sininhos na hora do beijo e se excitava com Chuck Norris, com o ortopedista da mãe, menos com o noivo tecnicamente perfeito. Passou a culpá-lo por seu mau-humor e frustrações. Estava com o homem dos sonhos de qualquer uma, no entanto, sentia-se perdida. Mas ela esperou 28 anos para que o príncipe aterrissasse. O que pacas a fez surtar? Virou burra? Havia uma fila à espera do carinha...

Ahhh, mas enquanto ela matutava a enormidade de sua demência, Paulinho surgiu... Não sabe se de pára-quedas, de debaixo do chão ou de Netuno. Mochileiro, 23, criado por avó, não sabia se trancava a faculdade de Rádio de TV para estudar Arquitetura, a exemplo da irmã um ano mais nova e precocemente próspera, ou se empregava a módica herança deixada pelo pai numa produtora de vídeo. A enfermidade de Maurício – o vira-lata do rapaz – foi quem os apresentou.

Paulinho era... A barba por fazer... Mas que voz é essa...? Que Paulinho é esse? Seguinte: meu cachorro tá malzão... Que boca.... Tem três dias que não come! Lindo... Raquel ficou, enfim, com a garganta seca... A paixão rolou! Boom!!! Desejo mútuo, orgasmos múltiplos... Dadinhos do amor, cinta-liga, gargalhadas... Raquel descobriu que sonhar com o tortuoso a fascina.

Uma linha de fogo e mistério.... Ele tem preguiça de ler, esquece datas, não entende dos perfumes caros de Raquel e divide a conta do motel, mas ela descobriu que ostentar um marido bem-apessoado, bem-sucedido, bem-feitinho-de-corpo e que deseja ter um casal de filhos porque é bonitinho não é sua praia. Ela não quer excesso de paz. Ela não precisa mais de uma fórmula para viver. Não precisa mais de uma vida de comercial de margarina. De um marido para falar que não ficou encalhada somente pela idéia de que só se é feliz se for do jeitinho que todo mundo é...

É sempre assim: enquanto algumas se gabam de um marido (que brocha), mas, no fundo, no fundo, queriam um cafajeste cheio de pegadas e adrenalinas, outras dão pra caramba e, no fundo, no fundo, invejam a tal vida de mulher casada.

Myllena Valença

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Vou te jogar na cama...

Foi-se o tempo em que os homens cantavam ao pé-do-ouvido uma música que deixasse as mulheres de pernas bambas ou as embalasse no compasso durante um velho e delicioso forró. Digo isso porque mais ou menos uns dez anos antes de nascer eu já era forrozeira e posso garantir não há nada melhor do que ouvir clássicos do tipo “vem morena pros meus braços, vem morena, vem dançar, quero ver tu requebrando, quero ver tu requebrar...”, que certos galanteadores já fizeram o favor de transformar em “vem Myllena pros meus braços...” – e olhe que eu caia direitinho na contada...

De uns tempos para cá, as sub-músicas só ensinam os rapazes a entoarem pornografias... Com as ofertas que andam circulando por aí, ou melhor, por aqui e acolá, praticamente sonypresentes, comecei a achar que dançar forró deixou de ser coisa de moças de família, passando a consistir em uma prática quase prostitucional! Não consigo entender cenas nas quais casais dançam agarradinhos, de olhos fechados, balbuciando canções do tipo “passe a mão na bunda dela” ou “hoje é cachaça, mulher e gaia”, cujo crédito deve ser abonado com todo louvor à banda-sensação Cavaleiros do Forró, que, inclusive, chegou a ponto de se apresentar no programa da chiquíssima Hebe Camargo, em rede nacional!

Bom, vou lhes contar outra experiência pior, mais muito pior do que tudo que imaginei passar na vida de boa dançarina. Um sem-classe – juro que não parecia, tinha carinha de boas procedências - me chamou para uma contradança. Agarrou-me pela cintura, mexeu-se no ritmo certo e... ahhh, infeliz, cantou baixinho para tentar (PORQUE JAMAIS CONSEGUIRIA!) me seduzir: “vou te jogar na cama, vou te deixar toda nua, vou te lamber, vou te morder, safada, você vai ficar tesuda...”. Fiquei P. da vida! Imaginem... Logo eu, uma lady, sendo obrigada a ouvir uma devassidão dessas! Certo que a música tinha essa letra dos diabos e o menino, em parte, nem era tão culpado assim, mas o empurrei e saí cor-ren-do! Urgh!

Ah, e os pobres artistas da Globo que vêm para as drilhas (carnaval fora de época fantasiado de forró), em Caruaru, hã? Só recebendo um cachê bem gordo... Morri de vergonha ao ver Fernanda Lima e Marcos Pasquim em pleno trio elétrico se requebrando ao som de “tem que valer, valer, valer na cama, tem que fazer gostoso pro gozo virar lama”. ZULIVRE!

Quer constrangimento pior? Quando trabalhei em certa assessoria de imprensa, fui incumbida de acompanhar uma equipe da TV Canção Nova. Católicos fervorosos, a repórter, a produtora e o cinegrafista ficaram chocados, perplexos, estupefatos ao ouvirem uma banda testando o som no palco principal do Parque de Eventos, pólo de animação da cidade, durante o são João. Não menos de quatro vezes, tocaram: “Ô, mulher roleira; ô, mulher roleira”. Rezei para ser transformada em um mosquito e sair voando para beeem longe e não ter que encarar novamente nenhum deles. Tentei a mágica de Chapolin, mentalizando o PARANGARICUTIRIMIHUARO!, mas não deu certo, droga, não deu certo! Eu tinha de ser rápida, precisava fazer algo para dispersar a equipe, que se olhava como quem queria comentar a situação. E eu: “Vocês viram a cotação do dólar hoje? Ta calor, né?”. Ai, Deus, nada adiantou.

Mas o pior de tudo foi o dissabor de presenciar uma mulher completamente bêbada brigando por um espaço, em meio à multidão das drilhas, para mostrar a coreografia de “dança da minhoca” (clássico de Saia Rodada tocado no Domingão do Faustão). A moça não teve o menor acanhamento em pôr uma das mãos no chão – enquanto segurava uma lata de cerveja com a outra – e subir e descer o traseiro repetitivas vezes! Ô, tadinha... Vamos dar um desconto... Foi tomada por um surto alcoólico, oras...

Já tentei imaginar o que leva um pseudo-artista a compor certas letras. Talvez eles tentem (sem sucesso) acompanhar os preceitos da arte conceitual, aquela que considera a idéia, o conceito por trás de uma obra artística como sendo superior ao próprio resultado final, que pode ser dispensável – e o é!

Myllena Valença




Ver dança da minhoca em: http://br.youtube.com/watch?v=uCSr9QZL76g&mode=related&search=

terça-feira, 12 de junho de 2007

E foi assim que aprendi...

Me chamo Alba e estou feliz por ter chegado, por milagre, aos 40 anos. Quero que vejam minha história como uma forte lição de vida. Nasci e fui criada na roça, no município de Serrita, no Sertão pernambucano. As circunstâncias me tiraram daquela cidade quando eu tinha três anos. Primeiro, porque minha mãe, Blanca, faleceu no dia do meu aniversário de um ano. Depois, porque meu pai, uma alma covarde, acabou fugindo, acossado pela própria covardia, desamparando a mim e aos meus irmãos. Éramos cinco irmãos. Cada um com um pai diferente. O fato de mamãe nunca ter se casado obrigou cada um de nós a ser levado para um destino diferente.

Dizem que sou fruto de um milagre, pois minha mãe chegou a tentar interromper a gravidez. Entendo suas razões. Queria ter evitado que mais uma de suas crianças fosse posta no Mundo para sofrer. Ela era enferma. Tinhas problemas no coração. Enfartou quando foi expulsa do seu miserável emprego. Morávamos todos no quartinho dos fundos, cedido a duras penas pelo proprietário da Fazenda Esperança. Saímos de lá por causa da mulher dele, uma senhora esquizofrênica que passou a ter ciúmes da esplêndida beleza de minha mãe.

Mamãe tinha cabelos verdes e longos. Seu corpo não fora deflorado pelas gestações. Teve todos os homens aos seus pés, mas o excesso de ingenuidade sempre a fazia cair nas garras de um mau caráter que a abandonou.

Minha avó, Nívea, tinha a mesma doença de mamãe e já havia perdido o marido, um prestamista trinta anos mais velho que ela, assassinado a pedradas ao tentar cobrar uma dívida a um cangaceiro.

Minha avó só soube da notícia dois dias depois do crime, quando o cangaceiro resolveu deixar o cadáver na porta da casa dela. Meu avô estava revestido em uma lona preta. Por cima dele, uma carta quase indecifrável relatava o profundo arrependimento daquele homem da caatinga. Dentro do envelope, uma ínfima quantia em dinheiro foi seu único consolo na viuvez. Minha avó não agüentou o fim trágico do marido e da única filha.

Depois disso, algumas famílias da região se compadeceram de mim e de meus irmãos. Nunca mais revi nenhum deles. Fiquei sob os cuidados de Dona Tonha, uma lavadeira que tirou longas férias depois de que completei oito anos. “Estou velha. Se quiser comer, tem que trabalhar”, resmungava. Mas o irmão dela passou tomar conta de mim. Dava-me tudo. Em troca, eu somente fazia seu jantar, lavava e passava suas roupas.

Os anos se passaram e eu era destaque no colégio de freiras, cuja mensalidade era paga por ele. Eu sonhava em ser professora. Meu tio, tão sonhador quanto eu, que foi durante anos meu pai e melhor amigo, planejava meu ingresso na melhor universidade da Capital. Ele era o único a me defender das maldades de Tonha, a quem nunca chamei de mãe.

Mas uma vez fui surpreendida no meio da noite pela violência do meu tio. Havia sido tomado pela embriaguez e por uma força diabólica. Tonha atribuiu a mim a fuga do irmão naquela tarde de verão escaldante. Sabia da paixão que ele mantinha enrustida. Disse que fui ingrata aos anos de dedicação dele. Que não entendia como eu dispensara tamanha bondade. Não sabia ela a forma violenta que ele tomara meu corpo, fugindo logo depois, para todo o sempre e nunca mais.

Somente vinte e cinco anos após o ocorrido é que voltei a falar. Preferi fechar-me para todos como meio de proteção - ou de vingança.

Em quatro anos, serei professora de Literatura, foi a primeira frase que balbuciei após os longos anos em silêncio. Fiquei muda em decorrência do trauma. Optei por me enclausurar neste minúsculo quarto de paredes mofadas. Habituei-me a viver trancafiada, limitando-me a ler e reler livros velhos e usados, comprados com o aluguel da garagem que Tonha deixou de herança. Estou derramando, hoje, as primeiras lágrimas de felicidade de toda minha vida. Passei no vestibular e vou ingressar na faculdade.

Myllena Valença

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Na Casa das Sete Mulheres

Assim que cheguei, não sabia com quem falar primeiro. Sobre qual assunto discorreria. Se seria mais séria, para aparentar responsabilidade, ou mais descontraída, para dar um ar de alegria à casa. Optei por deixar pra lá as interpretações - acabei sendo eu mesma. Eu era a mais nova da turma. “Pirralha”, começando a vida, aprendendo a ter responsabilidades. Cheguei depois de penar com outras criaturas sequeladas. A falta de casa, da família, deixou-me apavorada na época. Mas, naquela casa, encontraria apoio - pensei. Era meio imatura para enfrentar uma nova vida, uma cidade que, apesar de pequena, de interior, não havia conhecidos meus - mas eu queria (definitivamente) ser jornalista.

Apareceu a vaga no apartamento. Eu não poderia desperdiçar a chance. A proposta era dividir a casa com seis meninas e o quarto com mais quatro. Seria ‘A Casa das Sete Mulheres’. Parece muito? No início, também pensei assim. Mas ali viveria um dos melhores anos de minha vida, numa rotina nada desgastante. Nascia, portanto, uma grande - e linda - amizade.

Tudo era metodicamente dividido: sete mulheres, sete dias da semana. Então, mãos à obra! Na porta da geladeira havia tabelas para tudo: era dia de jogar lixo, lavar pratos, fazer faxina, lavar banheiro, geladeira e fogão, varrer a casa. O esquema teria tudo para dar certo, não fossem as desculpas nada convincentes de cada uma:

- É que trabalhei muito hoje...
- Que enxaqueca...
- Tenho prova, vou estudar!
- Eita... Num é que eu esqueci!

E a casa ficava à espera de uma pobre criatura que amanhecesse com disposição para dar conta de tudo e deixar a casa limpinha e cheirosa! Para resolver o problema, tentamos de tudo: reuniões semanais, nas quais eu ficava só olhando, absorta com as diferenças entre cada uma daquelas mulheres. Havia evangélica-abelhuda, atéia-intelectual, palhaça-estressada, boazinha-abusada e dondoca-esforçada. Um mix que fazia daquele lar o mais excêntrico que já conheci!

Decidimos fazer até mesmo uma eleição que aclamaria a ‘líder da semana’. Essa ficaria no pé das outras lembrando de cada tarefa - como se as regras do BBB pudessem mesmo ser aplicadas à nossa tosca realidade.

Depois das reuniões, a casa ficava impecável (por alguns dias, mas só por alguns dias...). Aí começava tuuuuudo de novo. Confesso que minhas amigas eram muito engraçadas. Quem mais falava era a mais meiga da casa, que vociferava inconformada, mas nunca causava receio. Daí entrava outra, uma ‘desbocada’, completamente louca, que dava uns dois ou três gritos, chamava uns palavrões e encaminhava as deliberações dos dias seguintes. Daí, se todas concordassem, o martelo era batido e não se falava mais nisso – por pouquíssimo tempo, claro!

A cumplicidade era nossa principal característica. Lembro quando, depois de uma rigorosa e longa triagem, fui a única selecionada para um estágio. As meninas choraram de felicidade. Também lembro como todas conseguiam odiar, junto comigo, meu chefe carrasco; torcer para que meus amores dessem certo. Quando adoeci, todas sentaram ao redor de minha cama para cuidar de mim. E riam de qualquer coisa que eu fizesse ou falasse, comparando-me a Vani, de Os Normais (vê se pode? Fudeu!Fudeu!Fudeu!).

Ainda liam todas as minhas crônicas - e sem reclamar, viu? De madrugada, a primeira que ouvisse os gemidos da vizinha durante o sexo, acordaria as outras para mandar a mulher fazer silêncio imediatamente - só para sacanear mesmo.

Com a conclusão do curso de Direito, cada uma tomou um rumo diferente. Fiquei sem chão. Órfã.

O tempo passou e morei com outras colegas. Mas nunca será igual. Nunca terá a magia de antes...


Myllena Valença