quinta-feira, 28 de junho de 2007

Vou te jogar na cama...

Foi-se o tempo em que os homens cantavam ao pé-do-ouvido uma música que deixasse as mulheres de pernas bambas ou as embalasse no compasso durante um velho e delicioso forró. Digo isso porque mais ou menos uns dez anos antes de nascer eu já era forrozeira e posso garantir não há nada melhor do que ouvir clássicos do tipo “vem morena pros meus braços, vem morena, vem dançar, quero ver tu requebrando, quero ver tu requebrar...”, que certos galanteadores já fizeram o favor de transformar em “vem Myllena pros meus braços...” – e olhe que eu caia direitinho na contada...

De uns tempos para cá, as sub-músicas só ensinam os rapazes a entoarem pornografias... Com as ofertas que andam circulando por aí, ou melhor, por aqui e acolá, praticamente sonypresentes, comecei a achar que dançar forró deixou de ser coisa de moças de família, passando a consistir em uma prática quase prostitucional! Não consigo entender cenas nas quais casais dançam agarradinhos, de olhos fechados, balbuciando canções do tipo “passe a mão na bunda dela” ou “hoje é cachaça, mulher e gaia”, cujo crédito deve ser abonado com todo louvor à banda-sensação Cavaleiros do Forró, que, inclusive, chegou a ponto de se apresentar no programa da chiquíssima Hebe Camargo, em rede nacional!

Bom, vou lhes contar outra experiência pior, mais muito pior do que tudo que imaginei passar na vida de boa dançarina. Um sem-classe – juro que não parecia, tinha carinha de boas procedências - me chamou para uma contradança. Agarrou-me pela cintura, mexeu-se no ritmo certo e... ahhh, infeliz, cantou baixinho para tentar (PORQUE JAMAIS CONSEGUIRIA!) me seduzir: “vou te jogar na cama, vou te deixar toda nua, vou te lamber, vou te morder, safada, você vai ficar tesuda...”. Fiquei P. da vida! Imaginem... Logo eu, uma lady, sendo obrigada a ouvir uma devassidão dessas! Certo que a música tinha essa letra dos diabos e o menino, em parte, nem era tão culpado assim, mas o empurrei e saí cor-ren-do! Urgh!

Ah, e os pobres artistas da Globo que vêm para as drilhas (carnaval fora de época fantasiado de forró), em Caruaru, hã? Só recebendo um cachê bem gordo... Morri de vergonha ao ver Fernanda Lima e Marcos Pasquim em pleno trio elétrico se requebrando ao som de “tem que valer, valer, valer na cama, tem que fazer gostoso pro gozo virar lama”. ZULIVRE!

Quer constrangimento pior? Quando trabalhei em certa assessoria de imprensa, fui incumbida de acompanhar uma equipe da TV Canção Nova. Católicos fervorosos, a repórter, a produtora e o cinegrafista ficaram chocados, perplexos, estupefatos ao ouvirem uma banda testando o som no palco principal do Parque de Eventos, pólo de animação da cidade, durante o são João. Não menos de quatro vezes, tocaram: “Ô, mulher roleira; ô, mulher roleira”. Rezei para ser transformada em um mosquito e sair voando para beeem longe e não ter que encarar novamente nenhum deles. Tentei a mágica de Chapolin, mentalizando o PARANGARICUTIRIMIHUARO!, mas não deu certo, droga, não deu certo! Eu tinha de ser rápida, precisava fazer algo para dispersar a equipe, que se olhava como quem queria comentar a situação. E eu: “Vocês viram a cotação do dólar hoje? Ta calor, né?”. Ai, Deus, nada adiantou.

Mas o pior de tudo foi o dissabor de presenciar uma mulher completamente bêbada brigando por um espaço, em meio à multidão das drilhas, para mostrar a coreografia de “dança da minhoca” (clássico de Saia Rodada tocado no Domingão do Faustão). A moça não teve o menor acanhamento em pôr uma das mãos no chão – enquanto segurava uma lata de cerveja com a outra – e subir e descer o traseiro repetitivas vezes! Ô, tadinha... Vamos dar um desconto... Foi tomada por um surto alcoólico, oras...

Já tentei imaginar o que leva um pseudo-artista a compor certas letras. Talvez eles tentem (sem sucesso) acompanhar os preceitos da arte conceitual, aquela que considera a idéia, o conceito por trás de uma obra artística como sendo superior ao próprio resultado final, que pode ser dispensável – e o é!

Myllena Valença




Ver dança da minhoca em: http://br.youtube.com/watch?v=uCSr9QZL76g&mode=related&search=

terça-feira, 12 de junho de 2007

E foi assim que aprendi...

Me chamo Alba e estou feliz por ter chegado, por milagre, aos 40 anos. Quero que vejam minha história como uma forte lição de vida. Nasci e fui criada na roça, no município de Serrita, no Sertão pernambucano. As circunstâncias me tiraram daquela cidade quando eu tinha três anos. Primeiro, porque minha mãe, Blanca, faleceu no dia do meu aniversário de um ano. Depois, porque meu pai, uma alma covarde, acabou fugindo, acossado pela própria covardia, desamparando a mim e aos meus irmãos. Éramos cinco irmãos. Cada um com um pai diferente. O fato de mamãe nunca ter se casado obrigou cada um de nós a ser levado para um destino diferente.

Dizem que sou fruto de um milagre, pois minha mãe chegou a tentar interromper a gravidez. Entendo suas razões. Queria ter evitado que mais uma de suas crianças fosse posta no Mundo para sofrer. Ela era enferma. Tinhas problemas no coração. Enfartou quando foi expulsa do seu miserável emprego. Morávamos todos no quartinho dos fundos, cedido a duras penas pelo proprietário da Fazenda Esperança. Saímos de lá por causa da mulher dele, uma senhora esquizofrênica que passou a ter ciúmes da esplêndida beleza de minha mãe.

Mamãe tinha cabelos verdes e longos. Seu corpo não fora deflorado pelas gestações. Teve todos os homens aos seus pés, mas o excesso de ingenuidade sempre a fazia cair nas garras de um mau caráter que a abandonou.

Minha avó, Nívea, tinha a mesma doença de mamãe e já havia perdido o marido, um prestamista trinta anos mais velho que ela, assassinado a pedradas ao tentar cobrar uma dívida a um cangaceiro.

Minha avó só soube da notícia dois dias depois do crime, quando o cangaceiro resolveu deixar o cadáver na porta da casa dela. Meu avô estava revestido em uma lona preta. Por cima dele, uma carta quase indecifrável relatava o profundo arrependimento daquele homem da caatinga. Dentro do envelope, uma ínfima quantia em dinheiro foi seu único consolo na viuvez. Minha avó não agüentou o fim trágico do marido e da única filha.

Depois disso, algumas famílias da região se compadeceram de mim e de meus irmãos. Nunca mais revi nenhum deles. Fiquei sob os cuidados de Dona Tonha, uma lavadeira que tirou longas férias depois de que completei oito anos. “Estou velha. Se quiser comer, tem que trabalhar”, resmungava. Mas o irmão dela passou tomar conta de mim. Dava-me tudo. Em troca, eu somente fazia seu jantar, lavava e passava suas roupas.

Os anos se passaram e eu era destaque no colégio de freiras, cuja mensalidade era paga por ele. Eu sonhava em ser professora. Meu tio, tão sonhador quanto eu, que foi durante anos meu pai e melhor amigo, planejava meu ingresso na melhor universidade da Capital. Ele era o único a me defender das maldades de Tonha, a quem nunca chamei de mãe.

Mas uma vez fui surpreendida no meio da noite pela violência do meu tio. Havia sido tomado pela embriaguez e por uma força diabólica. Tonha atribuiu a mim a fuga do irmão naquela tarde de verão escaldante. Sabia da paixão que ele mantinha enrustida. Disse que fui ingrata aos anos de dedicação dele. Que não entendia como eu dispensara tamanha bondade. Não sabia ela a forma violenta que ele tomara meu corpo, fugindo logo depois, para todo o sempre e nunca mais.

Somente vinte e cinco anos após o ocorrido é que voltei a falar. Preferi fechar-me para todos como meio de proteção - ou de vingança.

Em quatro anos, serei professora de Literatura, foi a primeira frase que balbuciei após os longos anos em silêncio. Fiquei muda em decorrência do trauma. Optei por me enclausurar neste minúsculo quarto de paredes mofadas. Habituei-me a viver trancafiada, limitando-me a ler e reler livros velhos e usados, comprados com o aluguel da garagem que Tonha deixou de herança. Estou derramando, hoje, as primeiras lágrimas de felicidade de toda minha vida. Passei no vestibular e vou ingressar na faculdade.

Myllena Valença

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Na Casa das Sete Mulheres

Assim que cheguei, não sabia com quem falar primeiro. Sobre qual assunto discorreria. Se seria mais séria, para aparentar responsabilidade, ou mais descontraída, para dar um ar de alegria à casa. Optei por deixar pra lá as interpretações - acabei sendo eu mesma. Eu era a mais nova da turma. “Pirralha”, começando a vida, aprendendo a ter responsabilidades. Cheguei depois de penar com outras criaturas sequeladas. A falta de casa, da família, deixou-me apavorada na época. Mas, naquela casa, encontraria apoio - pensei. Era meio imatura para enfrentar uma nova vida, uma cidade que, apesar de pequena, de interior, não havia conhecidos meus - mas eu queria (definitivamente) ser jornalista.

Apareceu a vaga no apartamento. Eu não poderia desperdiçar a chance. A proposta era dividir a casa com seis meninas e o quarto com mais quatro. Seria ‘A Casa das Sete Mulheres’. Parece muito? No início, também pensei assim. Mas ali viveria um dos melhores anos de minha vida, numa rotina nada desgastante. Nascia, portanto, uma grande - e linda - amizade.

Tudo era metodicamente dividido: sete mulheres, sete dias da semana. Então, mãos à obra! Na porta da geladeira havia tabelas para tudo: era dia de jogar lixo, lavar pratos, fazer faxina, lavar banheiro, geladeira e fogão, varrer a casa. O esquema teria tudo para dar certo, não fossem as desculpas nada convincentes de cada uma:

- É que trabalhei muito hoje...
- Que enxaqueca...
- Tenho prova, vou estudar!
- Eita... Num é que eu esqueci!

E a casa ficava à espera de uma pobre criatura que amanhecesse com disposição para dar conta de tudo e deixar a casa limpinha e cheirosa! Para resolver o problema, tentamos de tudo: reuniões semanais, nas quais eu ficava só olhando, absorta com as diferenças entre cada uma daquelas mulheres. Havia evangélica-abelhuda, atéia-intelectual, palhaça-estressada, boazinha-abusada e dondoca-esforçada. Um mix que fazia daquele lar o mais excêntrico que já conheci!

Decidimos fazer até mesmo uma eleição que aclamaria a ‘líder da semana’. Essa ficaria no pé das outras lembrando de cada tarefa - como se as regras do BBB pudessem mesmo ser aplicadas à nossa tosca realidade.

Depois das reuniões, a casa ficava impecável (por alguns dias, mas só por alguns dias...). Aí começava tuuuuudo de novo. Confesso que minhas amigas eram muito engraçadas. Quem mais falava era a mais meiga da casa, que vociferava inconformada, mas nunca causava receio. Daí entrava outra, uma ‘desbocada’, completamente louca, que dava uns dois ou três gritos, chamava uns palavrões e encaminhava as deliberações dos dias seguintes. Daí, se todas concordassem, o martelo era batido e não se falava mais nisso – por pouquíssimo tempo, claro!

A cumplicidade era nossa principal característica. Lembro quando, depois de uma rigorosa e longa triagem, fui a única selecionada para um estágio. As meninas choraram de felicidade. Também lembro como todas conseguiam odiar, junto comigo, meu chefe carrasco; torcer para que meus amores dessem certo. Quando adoeci, todas sentaram ao redor de minha cama para cuidar de mim. E riam de qualquer coisa que eu fizesse ou falasse, comparando-me a Vani, de Os Normais (vê se pode? Fudeu!Fudeu!Fudeu!).

Ainda liam todas as minhas crônicas - e sem reclamar, viu? De madrugada, a primeira que ouvisse os gemidos da vizinha durante o sexo, acordaria as outras para mandar a mulher fazer silêncio imediatamente - só para sacanear mesmo.

Com a conclusão do curso de Direito, cada uma tomou um rumo diferente. Fiquei sem chão. Órfã.

O tempo passou e morei com outras colegas. Mas nunca será igual. Nunca terá a magia de antes...


Myllena Valença

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Cacoetes: Saindo de cena

Cacoetes: Saindo de cena

I Coríntios 13

Me chamo José Galdino Filho e hoje é um dia bastante especial para mim, mas creio que só para mim. Hoje, cinco de janeiro, é meu aniversário. De minha família tudo que recebi foi um telefonema. Minha filha querida nunca esquece. Bem que ela gostaria de estar comigo para comemorarmos, mas a passagem de Salvador a Belo Jardim é muito cara e ela não pode ter despesas extras. Mas não me importo muito com família. Pelo menos foi essa idéia que fitei para conviver com a rejeição. E para não pensar muito nisso, sempre procurei me ocupar; trabalhei muito para manter a cabeça tranqüila (...).

Aos 20 anos, arrumei um emprego na cidade de Ribeirão-PE, onde trabalhei por cinco anos com carpintaria. Tornei-me homem feito. Na mesma época, tocava saxofone em casamentos, aniversários, batizados, enfim, em todas as festas para as quais era convidado. Tocar era o que de melhor eu sabia fazer. Eu respirava música. Fui maestro e professor dessa arte. Por meio dela, conquistei vários títulos, medalhas e troféus, que guardo com esmero até hoje. Fiquei conhecido em vários estados do Nordeste.

Bom, aos 27 anos fui morar em Sanharó, também em Pernambuco. Em seguida, casei-me com *Versulina Oliveira, uma mulher charmosa, seis anos mais velha que eu. Ela era inteligente e trabalhadora. Todavia, um mal infame nos separava: o cigarro. O sol mal aparecia e ela já estava perambulando pela casa, arrastando um chinelo velho, com aquele “troço” na boca. Onde ela estava, uma fuligem a acompanhava. Ao anoitecer, eu ia dormir e ela ficava sozinha na varanda, fumando até a dor na garganta falar mais alto. Um dia, tomei uma decisão muito séria e falei para ela: ou eu ou o cigarro! Brigamos muito por causa disso. Nem dormir ao seu lado eu conseguia mais. Mudei-me para outro quarto. Ela ficou atônita, tentou explicar que o vício era mais forte do que ela, mas continuei irredutível. Ela não ouvia meus conselhos; eu dizia que o cigarro fazia muito mal, mas a mulher era teimosa como uma mula, o que me deixava furioso. A situação perdurou vários anos.

Um dia, cansado de “arranca-rabos”, resolvi fazer as pazes com Versulina. Meu repúdio fora vencido pela nicotina. Durante o período de brigas e separação me veio à tona um sentimento surpreendente: recordações de um amor do passado - que viria a concretizar-se mais tarde - deixaram-me inquieto.

Em 1997, minha mulher foi tragada por uma doença funesta. O vício de uma vida inteira suscitou num câncer de esôfago. Versulina foi definhando e não resistiu. Nosso casamento durou 50 anos. Tivemos 12 filhos, mas a maioria morreu na infância. Não sei o porquê. Acho que era uma epidemia que atacava as criancinhas e, naquele tempo, a Medicina era inacessível para nós. Foi traumático para mim e para minha esposa, que já havia sofrido um aborto. Restaram apenas três homens (que nunca vieram me visitar) e uma mulher, a minha filha querida. Também tivemos netos e alguns bisnetos que nunca conheci.

Depois que Versulina se foi, senti-me só no mundo. Um velho inútil, sem anseios. Como não tinha mais quem cuidasse de mim, decidi procurar um asilo. Tive muito medo. Medo do desconhecido, de morrer de tristeza e tédio, medo da solidão. Em 1999, aos 79 anos, fui morar no Lar Espírita Bezerra de Menezes, na cidade de Belo Jardim - PE.

Assim que cheguei, cabisbaixo, com o coração acelerado e suando frio, tive uma visão que me deixou inerte. Minha respiração ficou suspensa por alguns segundos. Sentada numa cadeira de balanço, observando-me atenta e curiosamente, estava *Naíra, a mulher mais bela que já conheci. Quando eu era menino, conheci Naíra lá em Recife. Namorávamos escondidos. O pai dela era coronel, tinha fama de brabo. Eu morria de medo dele. Na época, o coronel perseguia Lampião, vê se eu iria me atrever a enfrentá-lo! Nunca! Fui morar em Garanhuns e ela em outra cidade do interior.

Depois de casado, encontrei-a uma ou duas vezes, mas nosso amor era impossível, afinal, nossas vidas haviam tomado rumos diferentes. Nunca a esqueci e quando me separei de Versulina, por causa do cigarro, prometi a mim mesmo que não poderia morrer sem antes beijar a Naíra novamente. Fiquei obstinado a isso. Quando a vi no Lar senti uma felicidade instantânea e um passe de mágica renovou as minhas forças. Tornei-me um menino novamente. Eu parecia um súdito diante de uma esplêndida rainha. Ao seu lado, percebi que o sentimento era recíproco. Eu jamais seria o mesmo homem. Começamos a namorar sério.

Naíra era uma mulher vistosa, doce e delicada. Tinha voz suave, cheiro de calêndula e o mesmo olhar de quando criança. Ela me dava amor, atenção e carinho. Conversávamos sobre tudo e riamos muito. Pensei que o asilo me tornaria uma pessoa sorumbática e vazia, mas o destino reservou-me esta surpresa divina. Através de Naíra, vivi os melhores momentos de minha existência. Alguns meses se passaram e resolvemos sair do asilo para morar juntos em nossa própria casa. Queríamos ter privacidade e fomos para Sanharó. Com sacrifício, compramos tudo que os recém casados têm direito - ela teve enxoval completo e tudo. Vivemos um sonho, tudo era perfeito. Eu cuidava dela e ela de mim.

Mas esse sonho durou apenas 16 meses. Com um rasgo de crueldade a morte levou embora o meu primeiro e grande amor. Mais uma vez fiquei sem chão. Senti-me impotente. Foi tudo muito rápido. Depois de comer um almoço requentado ela passou mal, sentiu dores na barriga e calafrios. Foi levada ao hospital e logo faleceu. Maldita comida requentada, só pode ter sido isso.

Quando meus ânimos se acalmaram voltei para o Lar Espírita. Todos me receberam de braços abertos. Sou bem tratado. Somos uma grande família. Hoje, no meu aniversário, não parei de pensar em Naíra um só segundo. À noite, sei que vou sonhar com ela. Tenho na mão esquerda um anel que ela me deu. Fez-me jurar que jamais o tiraria do dedo. Chego a passar horas olhando para essa relíquia. Aprendi com Naíra que nunca devemos desistir do amor. Esse sentimento sublime independe da idade. Aprendi ainda que a felicidade realmente existe.

E sabe aquela passagem bíblica que há em I Coríntios 13? Ela diz que “ainda que eu falasse as línguas, a dos homens e dos anjos, sem amor, eu nada seria”. A Naíra aplicou a palavra de Deus em minha vida. Então, em vez de lamentar sua morte, agradeço a Deus por ter sido jovem aos 79 anos de idade e de ter provado o sabor de uma paixão arrebatadora.

Sinto falta do beijo dela, de seu abraço, de seus pezinhos gelados esquentando-se nos meus nas noites do único inverno que passamos juntos. Às vezes, consigo ficar embriagado com a lembrança daquele cheirinho de calêndula. Nosso amor foi tão intenso que sua presença é concreta em minha vida. A saudade me corrói, porém, no lugar do choro estão as boas recordações. Ainda há resquícios de jovialidade em mim. E hoje, perto do fim de minha vida, aprendi: duas almas não se encontram por acaso.


Myllena Valença


*Nome fictício
*Texto originalmente publicado no livro 'Me Conte a Sua História'.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Mistério arrebatado

Não havia motivos suficientes para que Arnaldo acordasse disposto a cuidar ao menos sua higiene matinal. As dores de cabeça começavam assim que ele saltava da cama e abandonava seu lençol xadrez, ainda quentinho e revestido de ácaros, amontoados há quase dois meses. Os poucos móveis da casa eram oriundos de seu primeiro casamento, que teve fim após a descoberta de uma infidelidade. A mulher de sua vida, à época, o traia com o primo dela, um treinador de jiu-jitsu, oito anos mais novo. Professor universitário, de uma faculdade renomada, Arnaldo era o tipo de mestre distante, que viajava nas aulas de Filosofia e deixava os alunos absortos, não somente pelo teor das obras dos gloriosos pensadores que citava, mas pelas suas roupas de comunista desbotadas e pelo invariável par de tênis sujo, revestido por uma mancha, provavelmente vinda de alguma sopa que ele deixara escapar do prato, e que mudava de cor a cada aula.



Entre os demais professores, ele raramente era percebido. Chegava sempre atrasado e saia quinze minutos mais cedo. No ponto do ônibus, por distração, perdia a condução uma, duas vezes, chegava a ficar sozinho na rua. Aproveitava o tempo para sorver deliciosamente cada um seus cigarros. Em casa, ficava até a madrugada lendo Trotsky, Lênin, embriagado mais pela solidão e amargura que pelos copos de uísque.




Arnaldo não percebia, mas Ana - uma aluna aplicada, que tinha crises depressivas quando tirava menos que dez nas provas mais temidas pela turma - era a única a notar sua presença. Evangélica e extremamente acanhada, ela só usava saias na altura do joelho. Sua debilidade, desalento e alarmante brancura lhe davam uma forte característica adoentada. Ao contrário da maioria dos CDFs, sentava-se na última carteira da sala. Fazia segunda chamada, mas não encarava a apresentação de um seminário. Tudo para não chamar atenção. Estremecia ao imaginar que, por ventura, as atenções fossem dedicadas a ela.




Somente no segundo ano da faculdade Ana resolveu soltar a voz. Suave, baixa, nasal, tartamuda, teceu o primeiro comentário de sua vida para uma platéia tão grande. Habituou-se a fazer estudos bíblicos todas as noites com seu pai, um viúvo-taxista-aposentado, e somente com ele conseguia se soltar mais um pouco. A garota gerou polêmica ao discordar do único professor que jamais havia sido contestado. Ele nunca admitiu críticas. Estudantes eram criaturas sub-humanas e não teriam propriedade suficiente para discutir tête-à-tête com ele. Arnaldo retrucou com criticas ácidas. Menina tola. Quem ela pensa que é para me interpelar? Professor estúpido. Quem ele pensa que é para dirigir-se a mim com tantas injúrias?

Ana saiu aos prantos corredores afora. A própria frieza não impediu Arnaldo de dar continuidade à lição com ares de superioridade a qualquer tipo de intervenção ou opiniões opostas da turma.

Entretanto, aquela noite foi cruel para Arnaldo. Pensou em pedir desculpas a Ana na noite seguinte. Fumou dois maços de cigarros. Desta vez, misturou vodca a outras bebidas destiladas.

Ana havia escrito uma carta para o professor. Mas o envelope nunca chegou às mãos dele. Ela iria entregar após aquela aula, que fatalmente terminou em puro constrangimento. Na manhã do dia seguinte, a dor de cabeça de Arnaldo foi agravada pela notícia de destaque na rádio local. A menina fora morta por um assaltante, enquanto esperava que o pai lhe apanhasse. No conteúdo da carta, o amor platônico comedido pelo fundamentalismo do pai. Aquela jovem, apesar de pura, estava grávida de desejo. O mistério de seus pensamentos pecaminosos jamais foi revelado. Sua lascívia, juntamente com sua vida, acabou sendo arrebatada por forças superiores.

Myllena Valença



Viva a sensatez de Juninho Pernambucano!

Podem me chamar de louca, antipatriota ou me adjetivar ao seu modo discordante. Mas sinceramente nunca vi a Copa do Mundo como um acontecimento que mereça tanta paralisação. Minha gente, por favor! Um evento esportivo capaz de modificar a rotina do Mundo, os horários de trabalho. Certo que a economia e o turismo ganham muito com o feito, e tals, mas vejam um exemplo que me deixou absorta: um conhecido meu, juiz de Direito, pediu a tabela dos jogos à secretária dele para saber se deveria ou não marcar uma importante audiência – pelo menos para o pobre cidadão que esperava há meses a solução para sua causa. Absurdo! Mil vezes absurdo! Por que, então, o mundo não parou os trabalhos para assistir ao 11 de setembro? Ou por que não será decretado feriado mundial no dia do julgamento de Suzane von Richthofen?

E tem mais: cogita-se que o salário da apresentadora Adriane Galisteu é de R$ 500 mil, vale duas Ana Paula Padrão. O gordo salário da apresentadora global Angélica, parece-me, passa dos R$ 350 mil. A top Ana Hickmann ganha R$ 5 milhões por ano. Pff! Diferenças revoltantes, pois Deus sabe o quanto a jornalista trabalhou seus neurônios e as madrugadas que teve de abandonar o sono para informar com responsabilidade. Pior que isso? Um salário de um jogador de futebol. PQP! Já trabalhei 40 horas seguidas para cumprir minhas pautas em três estágios. Não queiram saber o quanto ganhei – vergonhoso, e infinitamente desproporcional às horinhas de treino e remuneração do jogador Ronaldo. E nada de zombarias do tipo “Ah, não queira se equiparar a um fenômeno”. Igualo-me, sim. Não vejo distinções profissionais. Todos têm sua função social.

Tenho uma professora doutoranda. Não tem ninguém próximo a mim que estude mais do que ela! Caso isolado ou não, seu salário não passa dos R$ 5 mil, e em dois empregos. Já o craque Ronaldinho Gaúcho, o mais valioso no mercado do futebol, tem um passe de R$ 133 milhões. Ronaldinho também encabeça a lista dos jogadores que mais faturam durante o ano. Ao todo, o brasileiro soma nada menos que 23 milhões de euros. Desculpem, mas não consigo achar isso normal. Acredito que o conhecimento é muito, mas muito mais importante que o dinheiro, mas não consigo entender o porquê da disparidade salarial entre os que superam os limites do corpo e os que superam os limites da mente!

Taí, mas até que alguém do meio falou algo sensato a respeito disso tudo: “Futebol é o esporte coletivo mais individual que existe” - Juninho Pernambucano.

Myllena Valença

*Publicada originalmente em www.mimeographo.blogspot.com, em junho de 2006