segunda-feira, 14 de maio de 2007

Cacoetes: Saindo de cena

Cacoetes: Saindo de cena

I Coríntios 13

Me chamo José Galdino Filho e hoje é um dia bastante especial para mim, mas creio que só para mim. Hoje, cinco de janeiro, é meu aniversário. De minha família tudo que recebi foi um telefonema. Minha filha querida nunca esquece. Bem que ela gostaria de estar comigo para comemorarmos, mas a passagem de Salvador a Belo Jardim é muito cara e ela não pode ter despesas extras. Mas não me importo muito com família. Pelo menos foi essa idéia que fitei para conviver com a rejeição. E para não pensar muito nisso, sempre procurei me ocupar; trabalhei muito para manter a cabeça tranqüila (...).

Aos 20 anos, arrumei um emprego na cidade de Ribeirão-PE, onde trabalhei por cinco anos com carpintaria. Tornei-me homem feito. Na mesma época, tocava saxofone em casamentos, aniversários, batizados, enfim, em todas as festas para as quais era convidado. Tocar era o que de melhor eu sabia fazer. Eu respirava música. Fui maestro e professor dessa arte. Por meio dela, conquistei vários títulos, medalhas e troféus, que guardo com esmero até hoje. Fiquei conhecido em vários estados do Nordeste.

Bom, aos 27 anos fui morar em Sanharó, também em Pernambuco. Em seguida, casei-me com *Versulina Oliveira, uma mulher charmosa, seis anos mais velha que eu. Ela era inteligente e trabalhadora. Todavia, um mal infame nos separava: o cigarro. O sol mal aparecia e ela já estava perambulando pela casa, arrastando um chinelo velho, com aquele “troço” na boca. Onde ela estava, uma fuligem a acompanhava. Ao anoitecer, eu ia dormir e ela ficava sozinha na varanda, fumando até a dor na garganta falar mais alto. Um dia, tomei uma decisão muito séria e falei para ela: ou eu ou o cigarro! Brigamos muito por causa disso. Nem dormir ao seu lado eu conseguia mais. Mudei-me para outro quarto. Ela ficou atônita, tentou explicar que o vício era mais forte do que ela, mas continuei irredutível. Ela não ouvia meus conselhos; eu dizia que o cigarro fazia muito mal, mas a mulher era teimosa como uma mula, o que me deixava furioso. A situação perdurou vários anos.

Um dia, cansado de “arranca-rabos”, resolvi fazer as pazes com Versulina. Meu repúdio fora vencido pela nicotina. Durante o período de brigas e separação me veio à tona um sentimento surpreendente: recordações de um amor do passado - que viria a concretizar-se mais tarde - deixaram-me inquieto.

Em 1997, minha mulher foi tragada por uma doença funesta. O vício de uma vida inteira suscitou num câncer de esôfago. Versulina foi definhando e não resistiu. Nosso casamento durou 50 anos. Tivemos 12 filhos, mas a maioria morreu na infância. Não sei o porquê. Acho que era uma epidemia que atacava as criancinhas e, naquele tempo, a Medicina era inacessível para nós. Foi traumático para mim e para minha esposa, que já havia sofrido um aborto. Restaram apenas três homens (que nunca vieram me visitar) e uma mulher, a minha filha querida. Também tivemos netos e alguns bisnetos que nunca conheci.

Depois que Versulina se foi, senti-me só no mundo. Um velho inútil, sem anseios. Como não tinha mais quem cuidasse de mim, decidi procurar um asilo. Tive muito medo. Medo do desconhecido, de morrer de tristeza e tédio, medo da solidão. Em 1999, aos 79 anos, fui morar no Lar Espírita Bezerra de Menezes, na cidade de Belo Jardim - PE.

Assim que cheguei, cabisbaixo, com o coração acelerado e suando frio, tive uma visão que me deixou inerte. Minha respiração ficou suspensa por alguns segundos. Sentada numa cadeira de balanço, observando-me atenta e curiosamente, estava *Naíra, a mulher mais bela que já conheci. Quando eu era menino, conheci Naíra lá em Recife. Namorávamos escondidos. O pai dela era coronel, tinha fama de brabo. Eu morria de medo dele. Na época, o coronel perseguia Lampião, vê se eu iria me atrever a enfrentá-lo! Nunca! Fui morar em Garanhuns e ela em outra cidade do interior.

Depois de casado, encontrei-a uma ou duas vezes, mas nosso amor era impossível, afinal, nossas vidas haviam tomado rumos diferentes. Nunca a esqueci e quando me separei de Versulina, por causa do cigarro, prometi a mim mesmo que não poderia morrer sem antes beijar a Naíra novamente. Fiquei obstinado a isso. Quando a vi no Lar senti uma felicidade instantânea e um passe de mágica renovou as minhas forças. Tornei-me um menino novamente. Eu parecia um súdito diante de uma esplêndida rainha. Ao seu lado, percebi que o sentimento era recíproco. Eu jamais seria o mesmo homem. Começamos a namorar sério.

Naíra era uma mulher vistosa, doce e delicada. Tinha voz suave, cheiro de calêndula e o mesmo olhar de quando criança. Ela me dava amor, atenção e carinho. Conversávamos sobre tudo e riamos muito. Pensei que o asilo me tornaria uma pessoa sorumbática e vazia, mas o destino reservou-me esta surpresa divina. Através de Naíra, vivi os melhores momentos de minha existência. Alguns meses se passaram e resolvemos sair do asilo para morar juntos em nossa própria casa. Queríamos ter privacidade e fomos para Sanharó. Com sacrifício, compramos tudo que os recém casados têm direito - ela teve enxoval completo e tudo. Vivemos um sonho, tudo era perfeito. Eu cuidava dela e ela de mim.

Mas esse sonho durou apenas 16 meses. Com um rasgo de crueldade a morte levou embora o meu primeiro e grande amor. Mais uma vez fiquei sem chão. Senti-me impotente. Foi tudo muito rápido. Depois de comer um almoço requentado ela passou mal, sentiu dores na barriga e calafrios. Foi levada ao hospital e logo faleceu. Maldita comida requentada, só pode ter sido isso.

Quando meus ânimos se acalmaram voltei para o Lar Espírita. Todos me receberam de braços abertos. Sou bem tratado. Somos uma grande família. Hoje, no meu aniversário, não parei de pensar em Naíra um só segundo. À noite, sei que vou sonhar com ela. Tenho na mão esquerda um anel que ela me deu. Fez-me jurar que jamais o tiraria do dedo. Chego a passar horas olhando para essa relíquia. Aprendi com Naíra que nunca devemos desistir do amor. Esse sentimento sublime independe da idade. Aprendi ainda que a felicidade realmente existe.

E sabe aquela passagem bíblica que há em I Coríntios 13? Ela diz que “ainda que eu falasse as línguas, a dos homens e dos anjos, sem amor, eu nada seria”. A Naíra aplicou a palavra de Deus em minha vida. Então, em vez de lamentar sua morte, agradeço a Deus por ter sido jovem aos 79 anos de idade e de ter provado o sabor de uma paixão arrebatadora.

Sinto falta do beijo dela, de seu abraço, de seus pezinhos gelados esquentando-se nos meus nas noites do único inverno que passamos juntos. Às vezes, consigo ficar embriagado com a lembrança daquele cheirinho de calêndula. Nosso amor foi tão intenso que sua presença é concreta em minha vida. A saudade me corrói, porém, no lugar do choro estão as boas recordações. Ainda há resquícios de jovialidade em mim. E hoje, perto do fim de minha vida, aprendi: duas almas não se encontram por acaso.


Myllena Valença


*Nome fictício
*Texto originalmente publicado no livro 'Me Conte a Sua História'.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Mistério arrebatado

Não havia motivos suficientes para que Arnaldo acordasse disposto a cuidar ao menos sua higiene matinal. As dores de cabeça começavam assim que ele saltava da cama e abandonava seu lençol xadrez, ainda quentinho e revestido de ácaros, amontoados há quase dois meses. Os poucos móveis da casa eram oriundos de seu primeiro casamento, que teve fim após a descoberta de uma infidelidade. A mulher de sua vida, à época, o traia com o primo dela, um treinador de jiu-jitsu, oito anos mais novo. Professor universitário, de uma faculdade renomada, Arnaldo era o tipo de mestre distante, que viajava nas aulas de Filosofia e deixava os alunos absortos, não somente pelo teor das obras dos gloriosos pensadores que citava, mas pelas suas roupas de comunista desbotadas e pelo invariável par de tênis sujo, revestido por uma mancha, provavelmente vinda de alguma sopa que ele deixara escapar do prato, e que mudava de cor a cada aula.



Entre os demais professores, ele raramente era percebido. Chegava sempre atrasado e saia quinze minutos mais cedo. No ponto do ônibus, por distração, perdia a condução uma, duas vezes, chegava a ficar sozinho na rua. Aproveitava o tempo para sorver deliciosamente cada um seus cigarros. Em casa, ficava até a madrugada lendo Trotsky, Lênin, embriagado mais pela solidão e amargura que pelos copos de uísque.




Arnaldo não percebia, mas Ana - uma aluna aplicada, que tinha crises depressivas quando tirava menos que dez nas provas mais temidas pela turma - era a única a notar sua presença. Evangélica e extremamente acanhada, ela só usava saias na altura do joelho. Sua debilidade, desalento e alarmante brancura lhe davam uma forte característica adoentada. Ao contrário da maioria dos CDFs, sentava-se na última carteira da sala. Fazia segunda chamada, mas não encarava a apresentação de um seminário. Tudo para não chamar atenção. Estremecia ao imaginar que, por ventura, as atenções fossem dedicadas a ela.




Somente no segundo ano da faculdade Ana resolveu soltar a voz. Suave, baixa, nasal, tartamuda, teceu o primeiro comentário de sua vida para uma platéia tão grande. Habituou-se a fazer estudos bíblicos todas as noites com seu pai, um viúvo-taxista-aposentado, e somente com ele conseguia se soltar mais um pouco. A garota gerou polêmica ao discordar do único professor que jamais havia sido contestado. Ele nunca admitiu críticas. Estudantes eram criaturas sub-humanas e não teriam propriedade suficiente para discutir tête-à-tête com ele. Arnaldo retrucou com criticas ácidas. Menina tola. Quem ela pensa que é para me interpelar? Professor estúpido. Quem ele pensa que é para dirigir-se a mim com tantas injúrias?

Ana saiu aos prantos corredores afora. A própria frieza não impediu Arnaldo de dar continuidade à lição com ares de superioridade a qualquer tipo de intervenção ou opiniões opostas da turma.

Entretanto, aquela noite foi cruel para Arnaldo. Pensou em pedir desculpas a Ana na noite seguinte. Fumou dois maços de cigarros. Desta vez, misturou vodca a outras bebidas destiladas.

Ana havia escrito uma carta para o professor. Mas o envelope nunca chegou às mãos dele. Ela iria entregar após aquela aula, que fatalmente terminou em puro constrangimento. Na manhã do dia seguinte, a dor de cabeça de Arnaldo foi agravada pela notícia de destaque na rádio local. A menina fora morta por um assaltante, enquanto esperava que o pai lhe apanhasse. No conteúdo da carta, o amor platônico comedido pelo fundamentalismo do pai. Aquela jovem, apesar de pura, estava grávida de desejo. O mistério de seus pensamentos pecaminosos jamais foi revelado. Sua lascívia, juntamente com sua vida, acabou sendo arrebatada por forças superiores.

Myllena Valença



Viva a sensatez de Juninho Pernambucano!

Podem me chamar de louca, antipatriota ou me adjetivar ao seu modo discordante. Mas sinceramente nunca vi a Copa do Mundo como um acontecimento que mereça tanta paralisação. Minha gente, por favor! Um evento esportivo capaz de modificar a rotina do Mundo, os horários de trabalho. Certo que a economia e o turismo ganham muito com o feito, e tals, mas vejam um exemplo que me deixou absorta: um conhecido meu, juiz de Direito, pediu a tabela dos jogos à secretária dele para saber se deveria ou não marcar uma importante audiência – pelo menos para o pobre cidadão que esperava há meses a solução para sua causa. Absurdo! Mil vezes absurdo! Por que, então, o mundo não parou os trabalhos para assistir ao 11 de setembro? Ou por que não será decretado feriado mundial no dia do julgamento de Suzane von Richthofen?

E tem mais: cogita-se que o salário da apresentadora Adriane Galisteu é de R$ 500 mil, vale duas Ana Paula Padrão. O gordo salário da apresentadora global Angélica, parece-me, passa dos R$ 350 mil. A top Ana Hickmann ganha R$ 5 milhões por ano. Pff! Diferenças revoltantes, pois Deus sabe o quanto a jornalista trabalhou seus neurônios e as madrugadas que teve de abandonar o sono para informar com responsabilidade. Pior que isso? Um salário de um jogador de futebol. PQP! Já trabalhei 40 horas seguidas para cumprir minhas pautas em três estágios. Não queiram saber o quanto ganhei – vergonhoso, e infinitamente desproporcional às horinhas de treino e remuneração do jogador Ronaldo. E nada de zombarias do tipo “Ah, não queira se equiparar a um fenômeno”. Igualo-me, sim. Não vejo distinções profissionais. Todos têm sua função social.

Tenho uma professora doutoranda. Não tem ninguém próximo a mim que estude mais do que ela! Caso isolado ou não, seu salário não passa dos R$ 5 mil, e em dois empregos. Já o craque Ronaldinho Gaúcho, o mais valioso no mercado do futebol, tem um passe de R$ 133 milhões. Ronaldinho também encabeça a lista dos jogadores que mais faturam durante o ano. Ao todo, o brasileiro soma nada menos que 23 milhões de euros. Desculpem, mas não consigo achar isso normal. Acredito que o conhecimento é muito, mas muito mais importante que o dinheiro, mas não consigo entender o porquê da disparidade salarial entre os que superam os limites do corpo e os que superam os limites da mente!

Taí, mas até que alguém do meio falou algo sensato a respeito disso tudo: “Futebol é o esporte coletivo mais individual que existe” - Juninho Pernambucano.

Myllena Valença

*Publicada originalmente em www.mimeographo.blogspot.com, em junho de 2006

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Ó, dúvida cruel!

Fazer a coisa errada sabendo que estou fazendo a coisa errada? Ou fazer a coisa certa e ficar com o coração do tamanho de uma uva-passa?
Mas se fizer a coisa errada, também ficarei com o coração miúdo. Porque terei de mentir.
E a mentira brinca de montar na ‘cacunda’.
É gorda, pesada.
Ela anda de mãos dadas com o remorso.
E só vai embora se eu fingir ter memória curta.
Mas esse fingimento me faria esquecer o motivo que me levou a fazer a coisa errada.
Esse erro, especialmente esse erro, chamo de burrice sentimental. Faz bem ao corpo. Mas corrói a alma.
Já sentiu dor na alma?
Eu já!
Toda vez que cometo esses desacertos.
E também quando não tenho a oportunidade de cometê-los.
Ó, dúvida cruel.

Myllena Valença

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Saindo de cena

Depois de alguns anos de exibições, certos programas de TV que conquistaram um público fiel acabaram por sair do ar. Mas não pelo fracasso. Não. Havia uma outra estratégia. A supercomédia dominical “Sai de Baixo”, por exemplo, preferiu finalizar suas apresentações na Rede Globo em fase de apogeu antes que seu estoque de piadas acabasse. Melhor deixar saudades nos telespectadores antes de cair no lugar-comum. A ex-modelo Luiza Brunet também abraçou o macete e confirmou, por diversas vezes, em entrevistas, ter deixado a carreira antes que viesse a desaparecer por completo da lista das mais belas tops, ou seja, quando as celulites invadissem suas pernas.



Por que, após algumas exibições na vida de certas pessoas, não resolvemos fazer o mesmo? Sumir desses amores que chegam descarados, ofuscando o brilho de outros pequenos amores ou nos mostrando como tudo era sem graça antes deles aparecerem. Queria aprender a sacada: deixar os homens louquinhos por mim e puff: desaparecer de suas vidas, até, um dia, quem sabe, resolver fazer alguns flash-backs - só para eles relembrarem o quanto faço falta, como tudo é sem graça quando não estou por perto. Mas a tarefa não é fácil. E é sempre assim: tudo parece perfeito e forças superiores me levam a querer aproveitar cada segundo.




Quando eu tinha uns 10 anos, os patins também deram um bom exemplo dessa mania feia de se desgastar na hora mais errada, deixando um grande abismo no meu círculo de felicidade. Tudo passou a não ter mais graça quando as rodinhas quebraram. Aí, não pude mais desfrutar deles. Se tivesse sido mais sensata, precavida, teria me apegado a um outro brinquedo e, quando os patins resolvessem se esquivar, eu não ficaria na pior.




Conheci um amor. Aparentemente, o ideal. Sabe que estremecia só de imaginar o quanto o Mundo ficaria nebuloso sem a presença dele? Papos, gostos, cheiros, risos e até as suas aflições... Queria ter juntado tudo. Fabricado um grande entrelaçado e perpetuá-lo. Ou melhor: eu deveria mesmo é ter fugido dele! No entanto, de teimosa, optei por reconstruir o tempo que perdera enquanto estive longe desse amor. Menina tola, menina tola... Idas e voltas (incontáveis idas e voltas) e tudo acabou se desgastando por completo. Perdi uma coisa que me era essencial. E essa falta ainda me assusta, porque o fato ter fazia de mim uma pessoa encontrável por mim mesma, sem ao menos precisar me procurar.




Por que não sai de cena antes? Da próxima, eu acerto! Quem sabe não consigo, enfim, provocar minha saída triunfal!

Myllena Valença



domingo, 29 de abril de 2007

Papai Noel foi o culpado

O que dizer de uma pobre criatura que nasce após o oitavo mês de gestação? Trauma, na certa! Especula-se até hoje em minha família que não havia um ser mais esquisito do que eu recém-nascida. Verde, sem unhas ou sobrancelhas, um verdadeiro Gremlin, sem tirar nem pôr. Imagino que os quarenta e dois dias que amargurei naquela incubadora da maternidade devem ter deixado conseqüências que, felizmente, perduraram apenas até minha adolescência. Cresci consciente de que não era um indivíduo normal. E os cuidados excessivos de minha mãe reiteraram a idéia de que eu era mais frágil do que qualquer criança da minha idade.

Rememoro dois traumas em especial que merecem destaque:

Trauma 1

Sempre que a família ia à praia, minha digníssima mãezinha ficava apavorada ao me ver perto do mar - ao menos que estivesse grudada a ela. Todo aquele envoltório de terror me fazia fantasiar durante horas sobre a existência dos animais nefandos que poderiam existir naquele mundaréu d’água. Imaginava as possíveis maneiras que o mar encontraria para me arrancar da areia e me levar para junto daqueles monstros terríveis sem que ninguém percebesse.

Conseqüência: odiava as aulas de natação e não cheguei a freqüentar aquela via-crúcis mais de uma vez. Aos 22 anos de idade não sei nadar, mergulhar, ou seja, sou hidrofóbica. Conselho? A comum intervenção dos adultos: "isso não pode!", "não faça isso!", inibe o processo de conhecimento da criança, e como ela poderá ter o senso de criação, crítica e avaliação das coisas?

Trauma 2
Esse não tem nada a ver com a redoma em que me colocava minha mãe, mas com o terrorismo orquestrado por um parente contra minha pessoa. A primeira vez que ouvi falar sobre aquele assombro foi quando um primo completamente cruel, seis anos mais velho, contou com requinte de detalhes (inclusive, tiro o chapéu para seu poder de persuasão) sobre a existência de um mefistofélico homem barbado, alto, forte, que perambulava pelo mundo na busca incessante de um fígado novinho para degustar. E pior: se a criança gritasse durante a captura do órgão, ele a levaria para todo o sempre e nunca mais, sem dó, e a menininha indefesa (no caso, eu) não seria jamais encontrada. Esse bicho era o famoso e temível Papa-figo.

Resultado: qualquer homem barbado me causava sérios transtornos, o que fez de mim, mais uma vez, uma criança completamente traumatizada – e excluída dos outros pirralhos. Quer pior ainda? Associei o Papa-figo ao pobre Papai Noel, coitado! A figura que me foi apresentada do bom velhinho era a cópia fiel daquela besta adoradora de fígados. Morro aos cem anos e não esqueço das noites infernais de Natal, quando eu implorava a minha irmã que me cedesse um lugarzinho em sua cama para eu não dormir sozinha. Contudo, ainda passava a noite em claro, gelada, esperando só a hora de Noel chegar – felizmente acabava adormecendo. Arrumar a casa inteira, comprar roupa nova e preparar uma ceia especial por causa do dia do velho barbado, pançudo e diabólico? Eu, hein! Era demais!

Como se não bastasse, tive hepatite na mesma época da descoberta. Meu primo, que não perdia uma oportunidade de me atormentar, aproveitando-se de minha já conhecida fragilidade, disse que a enfermidade era proveniente do Papa-figo, que havia levado embora um pedaço do meu órgão! “Por sorte, ele não levou suas entranhas por completo”, consolou-me. Quanta maldade! Como eu afundava dia após dia em decorrência da minha imaginação fértil, procurei uma amiguinha da escola para desabafar! Put’z, que droga de idéia foi aquela! Não sabia eu que a trama se espalharia na 2ª série inteira e que todos, outra vez, me olhariam como uma menina tão estranha quanto todos os bichos do mar, os comedores de fígados...

Agradeço a recuperação do trauma a uma tia postiça. Ela confessou que Papai Noel simplesmente nunca existiu, contradizendo todos os depoimentos de minha irmã, que garantiu veementemente ter pego em flagrante aquele ser das trevas no ato da entrega do presente, na noite de 24 de dezembro
.

Myllena Valença