Quando perguntei, só por curiosidade, a um amigo neurologista os motivos de uns sonhos estranhos que me perseguiam, ele respondeu que meu subconsciente estaria querendo se livrar de meu lado velho, de um modo de vida que, apesar de alheio ao bom senso, eu continuara persistindo em seguir. Eu nem desconfiava que, além dos amigos mais íntimos, minha mente também lutava contra os desejos insanos do meu coração. Esse duelo pode ser uma boa explicação para as dores constantes nos ossos. O espírito não estava em sintonia com o corpo. Daí a explicação para as não menos intensas dores vasculares... Doutor, me dá um remédio para a alma! Se não achar, me diz qual a fórmula capaz de ressuscitar esse músculo que acaba de me deixar com um buraco enorme no peito!
O mesmo médico me explicou também que quando a gente se livra do tal lado velho, o coração encara essa mudança como um luto. Cada dor, um luto. É assim que me sinto hoje. Não pela chegada de uma perda. Mas por ter me dado conta dela. Essa conscientização me veio com um rasgo desumano. Eu não percebera o luto ou não o aceitara porque nesse período minha alma travara uma grande guerrilha contra a razão. Acredito que nenhum deles saiu ganhando. E eu me perdi... E acabei encontrando a resposta para o que estou sentindo agora. Careço de força de gravidade. Estou solta, flutuando sozinha, com tempo suficiente para pensar no nada que encontro em volta. Já haviam me dito que o amor envolve riscos e que a vida não é nada mais do que poeira, desejo, invenção, fantasia, vontade... Vou tentar ser apenas racional. Um velho amigo já me alertou: “o coração, se pudesse pensar, pararia”.
Myllena Valença
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Caixinha de fósforos
Estou tendo a impressão de que não caibo mais em mim. Estou imensa e não sei o que fazer comigo mesma. Meus pensamentos não se acomodam. Vivem em ebulição. É como um feto dentro do ventre, que já acena para o dia da chegada, mas nada acontece. Sou como um menino gordo em frente a uma mesa cheia de guloseimas, mas que não sabe por onde começar, não sabe se devora primeiro o bolo de chocolate ou a macarronada. O que devo querer primeiro? Qual talher usar? Aí vou diminuindo diante desse mundaréu de planos e sonhos. E eu, que me sentia enorme, passo a minguar.
E se todos esses devaneios fossem bem-sucedidos? E se uma fada-madrinha me concedesse cada um dos meus anseios? Aí, temo não dar conta de todos eles... Por outro lado, eu poderia esquecer tudo: aquela viagem da minha vida, que, no fundo, no fundo, eu não queria que tivesse volta... Eu resolveria abandonar a mim mesma e apenas ajudar tanta gente que precisa - mesmo sem saber – de mim! Ai, Deus, preciso tanto de uma história inventada, de uma existência desenhada! Quero ajuda pra criar um fantástico roteiro que me faça sentir orgulho - de mim mesma? Aí, me deparo com o maior medo: vou me saciar um dia? Ou me tornarei escrava da minha fábrica incansável de fantasias? Essa ansiedade ainda me mata... Sinto-me em um simulado de múltipla escolha. Mas com casca de banana. Todas as alternativas me parecem deliciosas. Mas só posso escolher uma!
Por favor, preciso de um nome para isso que desejo! Ei, me explica! Para quê tudo isso? Onde quero fincar minha história? Será tudo vaidade? Que Deus me perdoe. Que Deus me ajude a continuar pertencendo a mim mesma. Quero o mundo todo para mim; e nem sei a qual pedido que devo dar prioridade na oração do dia. Minha cama já está do tamanho de uma caixinha de fósforos. Ainda ontem, tinha o tamanho de uma caixa de sapatos. Desse jeito, onde vou parar? Porque depois de conquistar, posso simplesmente preferir acordar no neutro.
Se eu encontrasse uma fórmula para dar existencialismo aos meus pensamentos, eles me explicariam a que vieram e andariam de mãos dadas comigo. Então, com um exército de aliados, tudo ficaria claro e simples...
Myllena Valença
E se todos esses devaneios fossem bem-sucedidos? E se uma fada-madrinha me concedesse cada um dos meus anseios? Aí, temo não dar conta de todos eles... Por outro lado, eu poderia esquecer tudo: aquela viagem da minha vida, que, no fundo, no fundo, eu não queria que tivesse volta... Eu resolveria abandonar a mim mesma e apenas ajudar tanta gente que precisa - mesmo sem saber – de mim! Ai, Deus, preciso tanto de uma história inventada, de uma existência desenhada! Quero ajuda pra criar um fantástico roteiro que me faça sentir orgulho - de mim mesma? Aí, me deparo com o maior medo: vou me saciar um dia? Ou me tornarei escrava da minha fábrica incansável de fantasias? Essa ansiedade ainda me mata... Sinto-me em um simulado de múltipla escolha. Mas com casca de banana. Todas as alternativas me parecem deliciosas. Mas só posso escolher uma!
Por favor, preciso de um nome para isso que desejo! Ei, me explica! Para quê tudo isso? Onde quero fincar minha história? Será tudo vaidade? Que Deus me perdoe. Que Deus me ajude a continuar pertencendo a mim mesma. Quero o mundo todo para mim; e nem sei a qual pedido que devo dar prioridade na oração do dia. Minha cama já está do tamanho de uma caixinha de fósforos. Ainda ontem, tinha o tamanho de uma caixa de sapatos. Desse jeito, onde vou parar? Porque depois de conquistar, posso simplesmente preferir acordar no neutro.
Se eu encontrasse uma fórmula para dar existencialismo aos meus pensamentos, eles me explicariam a que vieram e andariam de mãos dadas comigo. Então, com um exército de aliados, tudo ficaria claro e simples...
Myllena Valença
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Cigana Contadora de Histórias
Você sabia que, se não fossem os piolhos, o mundo não teria se enchido de gente? Pois é: Deus, tentando juntar Adão a Eva, que custavam a se apaixonar, jogou vários desses insetos sobre os dois moradores do Jardim do Éden. Na busca de coçar as costas um do outro, eles, enfim, aproximaram-se. O conto é apenas uma demonstração do que uma criança pode aprender através da contação de histórias. A prática, que nem sempre faz parte dos lares, é uma excelente forma de causar desejo de ler, conforme ensina a Cigana Contadora de Histórias, personificada pela jornalista Gabriela Kopinits, em Caruaru. Ela, que se considera uma “traça de livros”, repassa sua paixão pela leitura para crianças e adolescentes em escolas, bairros pobres e hospitais, levando a magia das lendas, mitos, folclores e fábulas e oferecendo, voluntariamente, um dia de alegria para os pequenos.
Gabriela tomou gosto por histórias aos quatro anos de idade, quando o pai começou ler para ela, sentado à beira da cama, antes de dormir. Daí em diante, autores como Monteiro Lobato e Ana Maria Machado ganharam uma fiel seguidora, que tenta propagar que “uma criança se torna um adulto mais seguro, feliz e equilibrado se tiver acesso à literatura”. Um dos livros preferidos da jornalista é o Contos Tradicionais do Brasil, do escritor Câmara Cascudo, considerado o Papa do folclore brasileiro. Nessa obra, a criançada pode encontrar muitos dos costumes, linguagens e crenças brasileiros. Literatura de cordel ajuda a compor o rol de predileções da contadora – e dos seus expectadores mirins também.
“Clássicos como Os Três Porquinhos, A Bela Adormecida e a Branca de Neve continuam encantando meninos e meninas. Aos poucos, eles começam a se aproximar, e quando percebo, já estão grudados na barra da minha saia, pra não se dispersar de uma só palavra”, descreve a Cigana, que hoje ajuda a manter, através da Secretaria Municipal de Educação, o Projeto de Incentivo à Leitura (em escolas públicas) e o Poesia, Alimento da Alma (com a participação de artistas da cidade).
Gabriela Kopinits foi convidada, no ano passado, para participar de uma noite de contação de histórias, organizada pelo Montalvo Arts Center, na Califórnia, Estados Unidos. A participação foi através do envio de um cd com histórias e fotos. No próximo dia 21, a jornalista estará se apresentando na Favela da Lata, em Caruaru. Quem quiser chamá-la para fazer a festa da garotada, deve ligar para o telefone (81) 9606 8762.
Myllena Valença
* Matéria publicada originalmente na Folha de Pernambuco
Gabriela tomou gosto por histórias aos quatro anos de idade, quando o pai começou ler para ela, sentado à beira da cama, antes de dormir. Daí em diante, autores como Monteiro Lobato e Ana Maria Machado ganharam uma fiel seguidora, que tenta propagar que “uma criança se torna um adulto mais seguro, feliz e equilibrado se tiver acesso à literatura”. Um dos livros preferidos da jornalista é o Contos Tradicionais do Brasil, do escritor Câmara Cascudo, considerado o Papa do folclore brasileiro. Nessa obra, a criançada pode encontrar muitos dos costumes, linguagens e crenças brasileiros. Literatura de cordel ajuda a compor o rol de predileções da contadora – e dos seus expectadores mirins também.
“Clássicos como Os Três Porquinhos, A Bela Adormecida e a Branca de Neve continuam encantando meninos e meninas. Aos poucos, eles começam a se aproximar, e quando percebo, já estão grudados na barra da minha saia, pra não se dispersar de uma só palavra”, descreve a Cigana, que hoje ajuda a manter, através da Secretaria Municipal de Educação, o Projeto de Incentivo à Leitura (em escolas públicas) e o Poesia, Alimento da Alma (com a participação de artistas da cidade).
Gabriela Kopinits foi convidada, no ano passado, para participar de uma noite de contação de histórias, organizada pelo Montalvo Arts Center, na Califórnia, Estados Unidos. A participação foi através do envio de um cd com histórias e fotos. No próximo dia 21, a jornalista estará se apresentando na Favela da Lata, em Caruaru. Quem quiser chamá-la para fazer a festa da garotada, deve ligar para o telefone (81) 9606 8762.
Myllena Valença
* Matéria publicada originalmente na Folha de Pernambuco
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Frase mórbida?! Eu não acho
Meu primeiro contato com Ele foi quando eu tinha cinco anos de idade. Cochilei e fiz xixi no sofá de casa, novinho em folha. É hoje que levo uma surra, resmunguei! Mas aí, antes de me deitar, ajoelhei-me e sussurrei: Papai do Céu, que mainha não brigue comigo quando chegar em casa, senão eu tô frita! Dormi na mais perfeita paz e no dia seguinte ela até me consolou: a gente lava e põe no sol. Ops, encontrei ali um aliado! Cresci lembrando com gratidão por aquele dia, certa de que não foi o sol que me salvou de uma bela bronca...
Mas hoje, cada dia que passa, tenho até certo constrangimento de falar sobre Ele. E isso me dá um remorso danado... Porque a maioria das pessoas prefere acreditar em si própria, na sorte, no acaso, na natureza, nos astros, em Santa Periquita do Rabo em Pé, na puta que lhe pariu, a dar crédito pela vida, pelas graças ou pelos livramentos a Deus. Ou Jesus. Já repararam que as pessoas pouco usam esse nome?
De uns tempos para cá, percebi que não posso consolar muitos amigos oferecendo-lhe uma palavra de conforto advinda da Bíblia: seria mais que uma afronta às mentes que se acham magnânimas e mega-bem-instruídas. Elas não acreditam em um livro que somente ensina o bem, mas lêem os jornais, e propagam tudo que estava ali - que foi escrito por um mero repórter - como a mais pura verdade. Ficam inchadas de tanta presunção ao ditarem seus autores, livros favoritos. “Não, porque Dan Brown é maravilhoso... Não, porque adoro as críticas de Arnaldo Jabor”. Mas o que disse Jesus aos seus discípulos precisa ser incansavelmente rebatido, discutido, punido...
Estava conversando com uma amiga e comentei: mas a gente não pode botar uma passagem cristã no MSN que é motivo de polêmica, né, menina? Logo depois, coloquei no espaço de mensagens pessoais a seguinte frase: "Nunca mais te servirá o sol para luz do dia nem com o seu resplendor a lua te iluminará; mas o Senhor será a tua luz perpétua". Juro: não se passaram cinco minutos para a primeira avessa a Deus dizer: “mas q frase mórbida é essa, mulher?”. Mórbida? A cazzo só se fala em Deus quando se está na lama? Outro: “Virou crente, foi?”. Dã! Me errem!
Já ganhei tantas coisas boas, já tive tantos pedidos acatados, já recebi bênçãos... Mas se eu atribuir tudo isso a Deus, noooooossa! Arranjo facilmente um opositor! Já deve ter até algum leitor pensando: Mas ela não quer dar uma de santinha pra cima de mim não, né? Acertei? Seguramente, sim!
Uma exemplo dos frutos da minha fé: havia uns quarenta candidatos à vaga por um estágio... Por aí. Estava num período de baixa auto-estima. O “emprego” em uma TV cairia como uma luva para eu descobrir que eu não poderia ser tão improfícua quanto pensara. Fiquei na minha. Os que se auto-congratulavam os mais ilustres da faculdade, que tinham a cabeça quase saindo do pescoço, me olhavam de nariz torcido. Mas aí eu bati o pé: Deus, o sol por acaso não nasceu para todos? E eu por acaso não lhe sou fiel? (Hoje estou bem dispersa, mas, no tempo, eu realmente era!) Pois fiquei na varanda de casa, cobrei a Deus boa parte de suas promessas e, dias depois, tive a notícia do resultado. Única selecionada!
À época, aquilo me parecia a chance de minha vida, um divisor de águas. Hoje vejo que não era nada se comparado à glória que Deus ainda irá me revelar. Pretensiosa? Não... Nem um pouco. Não sou alienada, não sou fundamentalista, nem nenhum desses termos proclamados pelos que adoram mostrar sua opinião “sóbria” e “madura” ou sabe-se lá o quê contra Cristo! Apenas confio no meu taco e em alguém que me ama, me conhece pelo meu nome e pode me sustentar!
Myllena Valença
Mas hoje, cada dia que passa, tenho até certo constrangimento de falar sobre Ele. E isso me dá um remorso danado... Porque a maioria das pessoas prefere acreditar em si própria, na sorte, no acaso, na natureza, nos astros, em Santa Periquita do Rabo em Pé, na puta que lhe pariu, a dar crédito pela vida, pelas graças ou pelos livramentos a Deus. Ou Jesus. Já repararam que as pessoas pouco usam esse nome?
De uns tempos para cá, percebi que não posso consolar muitos amigos oferecendo-lhe uma palavra de conforto advinda da Bíblia: seria mais que uma afronta às mentes que se acham magnânimas e mega-bem-instruídas. Elas não acreditam em um livro que somente ensina o bem, mas lêem os jornais, e propagam tudo que estava ali - que foi escrito por um mero repórter - como a mais pura verdade. Ficam inchadas de tanta presunção ao ditarem seus autores, livros favoritos. “Não, porque Dan Brown é maravilhoso... Não, porque adoro as críticas de Arnaldo Jabor”. Mas o que disse Jesus aos seus discípulos precisa ser incansavelmente rebatido, discutido, punido...
Estava conversando com uma amiga e comentei: mas a gente não pode botar uma passagem cristã no MSN que é motivo de polêmica, né, menina? Logo depois, coloquei no espaço de mensagens pessoais a seguinte frase: "Nunca mais te servirá o sol para luz do dia nem com o seu resplendor a lua te iluminará; mas o Senhor será a tua luz perpétua". Juro: não se passaram cinco minutos para a primeira avessa a Deus dizer: “mas q frase mórbida é essa, mulher?”. Mórbida? A cazzo só se fala em Deus quando se está na lama? Outro: “Virou crente, foi?”. Dã! Me errem!
Já ganhei tantas coisas boas, já tive tantos pedidos acatados, já recebi bênçãos... Mas se eu atribuir tudo isso a Deus, noooooossa! Arranjo facilmente um opositor! Já deve ter até algum leitor pensando: Mas ela não quer dar uma de santinha pra cima de mim não, né? Acertei? Seguramente, sim!
Uma exemplo dos frutos da minha fé: havia uns quarenta candidatos à vaga por um estágio... Por aí. Estava num período de baixa auto-estima. O “emprego” em uma TV cairia como uma luva para eu descobrir que eu não poderia ser tão improfícua quanto pensara. Fiquei na minha. Os que se auto-congratulavam os mais ilustres da faculdade, que tinham a cabeça quase saindo do pescoço, me olhavam de nariz torcido. Mas aí eu bati o pé: Deus, o sol por acaso não nasceu para todos? E eu por acaso não lhe sou fiel? (Hoje estou bem dispersa, mas, no tempo, eu realmente era!) Pois fiquei na varanda de casa, cobrei a Deus boa parte de suas promessas e, dias depois, tive a notícia do resultado. Única selecionada!
À época, aquilo me parecia a chance de minha vida, um divisor de águas. Hoje vejo que não era nada se comparado à glória que Deus ainda irá me revelar. Pretensiosa? Não... Nem um pouco. Não sou alienada, não sou fundamentalista, nem nenhum desses termos proclamados pelos que adoram mostrar sua opinião “sóbria” e “madura” ou sabe-se lá o quê contra Cristo! Apenas confio no meu taco e em alguém que me ama, me conhece pelo meu nome e pode me sustentar!
Myllena Valença
domingo, 26 de agosto de 2007
Uma má notícia
Toda semana minha mãe liga e geralmente me aparece com uma notícia-bomba. Quando não, minha irmã é a interlocutora. O que foi dessa vez?, pergunto já de sobrancelha levantada. E ela começa a narrar a manchete de São Bento do Una – geralmente relacionada a parentes. Eles pedem dinheiro e esquecem de pagar, adoecem, morrem e deixam os custos por conta de minha mãe, invadem a casa... Mami, já é de praxe, reata casamentos, arruma emprego, tenta abrandar o choque de uma gravidez indesejada, e por aí vai. Mas o protagonista de hoje foi diferente. Myle, nem te conto, Luck está com depressão! Comassim, Bial? Confesso que aquilo me veio com um aperto grande no coração, maior que o causado pela lembrança de não ter conhecido, tirado fotos e tocados os cabelos visivelmente macios de Sandy e Junior em sua última turnê.Imaginei em poucos segundos toda a vida de Luck. Há quanto tempo ele não tem uma namorada? Seguramente, desde quando nos mudamos da chácara para o centro da cidade, há quase quatro anos. Ninguém tinha muito tempo ou paciência de lhe dar atenção, levá-lo para conhecer o novo ambiente, tão diferente da paisagem arborizada e cheia de bichos com a qual estava habituado. Mas chegar a ter depressão? A ficha começou a cair. Taí a explicação para o bege fosco de sua aparência, aquele olhar caído, sem brilho e a repentina estranheza com quem tinha mais laços. Eram sinais de que ele não estava lá muito bem. Caminha pouco e mal faz ruídos ao longo do dia. Falta-lhe apetite e nem mesmo um bom banho de bica parece estimulante. Isolamento social acaba qualquer um, ainda mais Luck, cheios dos traumas, que, abandonado pela família, só encontrou um novo lar por causa da conhecida generosidade de minha mãe, coitado!
Juro que queria estar do lado dele agora. Uns afagos ajudariam. Guilhermano, o veterinário, disse que o tratamento deve incluir medicamentos antidepressivos, como Prozac, ou remédios homeopatas e Florais de Bach, prescritos pelo terapeuta. Tudo para o restabelecimento emocional do cão deprimido. Sei que muitos que procuram minha mãe a tratam bem por puro interesse. Luck não, ele se achega a ela com afeto desinteressado e incondicional. Serviu de lição pro meu pai. Depois de perder uns cinco cães com pedigree por causa de doenças bobas ou por “frescura de cachorrinho chique”, jurou que só criaria vira-latas. Mas essa história deixou o velho chocado: “Hum, depressão em pé-duro? O mundo está mesmo de cabeça para baixo!”.
Myllena Valença
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Na Casa das Sete Mulheres 2
Quem acompanhou as peripécias de minhas coleguas em “Na Casa das Sete Mulheres” e conheceu o lado romântico de uma república deve se preparar para apreciar as outras facetas das espécies com quem habitei. Houve algumas normais, sei. Mas as barras-pesadas super merecem divulgação. Não posso guardar para mesas de bar ou para minhas netinhas as excentricidades das garotas que invadiram a calmaria do meu lar e me fizeram esquecer o significado do termo normalidade, tornando minha vida menos compartilhada e mais compartimentada. Vou usar nomes fictícios, ok? Ainda não será dessa vez que ficarão famosas.
Já vivi sob o mesmo teto que a mulher mais fora de si de todo o mapa-múndi. Susana dizia por aí ter sido noiva de um traficante do Rio de Janeiro. Usava um anel da H. Stern cravejado de três pedras de brilhante, que, segundo o orçamento esbanjado pela “sortuda”, valia mais de quatro mil reais. Também tinha vestido e sapatos de grife doados pelo garanhão. Era o seu kit! Uuui!
A garota se aproveitou do meu excesso de bondade e aprontou pacas! Num dia de frio vestiu (sem permissão) meu único casaco limpo e, desaforada que só ela, disse que se eu quisesse usar a roupa fosse lá obrigá-la a tirar. Não sei se foi o gosto pelo desafio ou se ela tava ligada na minha. Preferi não procurar saber de suas intenções e sai no frio mesmo. Ai, como eu era lesa!
Dias depois fui usar as botas mais lindas que uma estudante de primeiro período e sem estágio poderia comprar. Me arrumei toda, vesti o pé esquerdo e, com o outro pé descalço, fui até a sala, mancando feito coxa. Ela estava sentada de pernas pro ar e fumando um cigarro. Susana, tu viu minha bota preta que tava no armário? Mulheeeer, sabe o que foi...? É que saí com ela ontem à noite (mais uma vez sem permissão) e um bandido me assaltou. Ele deixou cair uma e eu trouxe de volta! E por que você não entregou a outra bota ao moço, Susana? O que o bandido vai fazer com uma bota só? Depois descobri que aquele exu tinha jogado o sapato no namorado, durante uma briga na rua, e não voltou para buscar...
Lembro do dia que avistei Lourdes pela primeira vez. Uma moça cheia de gingas de malandro da favela. Pintava as madeixas de preto azulado e tinha o hábito de modelá-las com um tal de pega-rapaz. Fazia um rabo-de-cavalo e deixava uma franja quase na altura dos ombros, dividida ao meio para dar um “quê” de mulher fatal. Fora as maquiagens num estilo Paulette Pink, a drag queen; e as lentes de contato azuis (e verdes, para ocasiões mais formais) que usava lhe davam um aspecto de vampirismo de lascar, do tipo tirem as crianças da sala, que lá vem Lourdes! Adorava usar um par de botas brancas na altura do joelho e mais parecia que as pernas da louca estavam engessadas.
Um belo dia me aparece desfilando pela casa com um pedaço de pão francês com carne numa mão e um palito de dentes na outra, só de calcinha e sutiã. Ao notar nossos olhares (pouco discretos) para seu o corpinho nada jeitoso, tratou logo de esclarecer: tão vendo isso aqui no meu quadril? Né estria, não! É marca de facada mermo! Silêncio absoluto e olhos arregalados. Pelamordedeus! Pensamos em exorcizar a menina, entregar cartilha de educação doméstica. Tão simples. Mas a guria queria nem papo com a gente.
Havia outra, Marluce, que era “tarada, sim, e com muito orgulho”. Com ela não tinha esse negócio de perder tempo com conversa fiada! Queria, podia e conseguia devorar os homens! A lembrança de Marluce que tenho entalada na memória é dela preparando uma feijoada. Estava com toca de meia na cabeça para conservar a escova feita sete dias antes, vestia camisa branca furenta, daquelas ganhas em campanha de vereador, e um micro short que desafiava as leis da Física. Enquanto partia com uma peixeira os pedaços de linguiça, mantinha o pé esquerdo escorado no joelho direito e, de vez em quando, dava uma pausa para tirar a calcinha de renda vermelha - maior que o short - da bunda; cortava pé-de-porco, tirava o outro lado da calcinha da bunda; machucava o alho e... Não era tão vaidosa quanto a outra: tinha um rímel vencido no nécessaire e ainda não havia descoberto sua utilidade.
Ela vivia com os hormônios histéricos e uma das moradoras até costumava chamá-la de periquita flamejante! Com razão. Numa noite qualquer, as outras cinco meninas circulavam alvoroçadas pela cozinha, sala, banheiro... Mas um dos quartos estava mais que ocupado. Trancado. Em vez de colocar uma placa com néon rosa na porta dizendo “O BICHO TA SOLTO!” ou ir para o lugar certo onde se faz certas coisinhas, a moça levou “o homem das mãos grossas” para um dos nossos quartos. Minha gente, aquilo deu um rolo... Uma semana de reunião, debate de puritanas versus desinibidas, um chilique danado! Foi trabalho para a casa se descontaminar daquele dia!
Agora, avaliem o que é essa criatura, doente por Bruno e Marrone, dividindo espaço com uma roqueira. Mas não era uma roqueira qualquer, não! Era seguidora de Sepultura, Ratos de Porão e, em dias de calmaria, Dimmu Borgir – tudo no volume máximo! Na semana que apareceu na casa, a moça teve a insalubre capacidade deixar as unhas de molho em uma Tupperware e jogar os restos mortais de cutículas DENTRO, compreendem?, DENTRO da pia da cozinha! E achou péssimo a gente tentar explicar que, no convívio em sociedade, isso é absolutamente execrável! Jogamos o recipiente lixo adentro junto com a memória, mas ainda era um parto ver aquela criatura mastigar com a boca aberta e trocar guardanapos por panos de prato...
Sofri, é bem verdade, mas a vingança vem de jegue! Saí de lá e, no lugar, ficou uma criatura que faz qualquer uma dessas histórias parecer fichinha! Toma café no prato, usa saia longa com bota All Star e colabora com o futuro da humanidade poupando qualquer uso de água.
Myllena Valença
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Bálsamo
Passa um a um na lista telefônica e desiste na letra G... Não encontra alguém que a faça rir, que a console. Não tem ninguém. A magnífica invenção de Graham Bell nem sempre é o antídoto para esse buraco negro implacável que transforma sua rotina em discretos velórios sem flores e sem pessoas para dar-lhe movimento. A saudade sufoca. O desejo de roubar e enjaular o que não lhe pertence, dói. Porque não adianta estar junto, porque ainda não pode ser assim. A pressão aumenta, o oxigênio diminui. E precisa de um tempo para pinturas e reformas. O breu toma conta do universo, das conversas, dos amigos, das roupas que outrora fizeram daquela mulher algo mais que um esqueleto que se deita e se levanta sem rumo.Daria qualquer coisa para sentir novamente a paz que aquele silêncio provoca. Aquela respiração era a dose de endorfina que mantinha sua pulsação. Queria - nem que fosse para sobreviver vendo-o sorrir com a mesma magia do segundo encontro. Como que dentro de um quadro emoldurado... Isso lhe bastaria. Ah, se o momento se perpetuasse, e congelasse... A lágrima se acomodaria e não mais teria motivos para cair. O corpo não ficaria mais enfadado de tanto lutar contra a memória daqueles dias.
Ela nunca se sentiu de ninguém. Mas foi descoberta, desbravada. Agora ela vai começar a se preparar para o dia do arrebatamento. Para mais uma prova de seu elixir. Ele irá retirá-la do congestionamento. Do excesso de buzinas. Das músicas tocadas ao inverso. E então o abraço virá como um bálsamo para sua alma incompreendida. Conforme ensinou um poeta, aprendeu com a primavera a deixar-se cortar e voltar sempre inteira.
Myllena Valença
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